É que os frades eram “dos elementos mais perniciosos entre os que tinham entrado e continuavam a entrar com as avalanches, que enchiam aqueles distritos, e não só porque se entregavam desenfreadamente ao ganho como todo aquele mundo, mas ainda porque, valendo-se do seu ascendnete sobre o espírito da massa, eram quase sempre os promotores de todas as desordens”.
Desgraçadamente os compêndios de História do Brasil adotados por nossas escolas aureolam os padres e os frades do tempo da nossa civilização com as glórias de heróis. Os seus autores sabem que, se disserem a verdade, os seus livros não terão guarida nos ginásios, em grande parte, dirigidos, maquiavelicamente, por padres e freiras, ou que deles recebem “orientação”.
Aquelas nossas informações, acima aspadas, são de Rocha Pombo, registradas em sua História do Brasil( Rio de Janeiro – 1905, volume 6, pagina 245), cuja PRIMEIRA EDIÇÃO deveria ser lida por todo intelectual patrício.
Destaco em caixa alta a PRIMEIRA EDIÇÃO porque as subseqüentes foram criminosamente resumidas e mutiladas. Destas podaram-se todos os informes sobre latrocínios, extorsões, atrocidades e crimes cometidos pelos clérigos missionários.
A maioria dos brasileiros supõe que, naqueles tempos, Portugal açambarcava todo o outro bateado pelos lavangeiros ou garimpado nos veios das rochas. Supõe, também, que, em tempos posteriores, a Inglaterra usurpou-o das bruacas lusitanas. Verdade é que o Reino estabelecia impostos, arrecadados pela quintagem, com o fim de beneficiar o seu erário.
Os frades, contudo, não vieram para o Brasil com missão de catequizar. O historiador Rocha Pombo, no passo já referido, informa-nos que o Conde de Assumar, dentre as questões a enfrentar, tinha de se haver com a da “expulsão de todos os religiosos regulares que não tivessem naquela Província do seu domínio uma função certa, própria do seu apostolado”.
Tinham esses “religiosos” (frades cognominados pela legislação romanista de “religiosos regulares”) outra incumbência bem diversa da apregoada e que causou graves prejuízos ao Brasil. Vieram carrear o ouro para o papa e para o seus conventos na Europa!
O ouro do Brasil, em grande parte, encontrara-se ainda hoje em poder do Vaticano, que o faz ocupar o segundo lugar no mercado desse valor precioso, cujas reservas o papa deposita no Federal Reserve Bank, em Washington. O papado não ocupa o primeiro lugar no mundo nesse mercado porque preferiu trocar uma parte do seu ouro com outros valores, como dólares, que atingem a cifra astronômica de 90 bilhões, e em títulos de sociedades italianas avaliados em 9 trilhões de liras e de sociedades de outros países cotados em 8 bilhões de libras esterlinas. E essa riqueza fabulosa e atual do Vaticano o faz o maior acionário de todo o mundo!
No livro "PODER-SE-Á CONFIAR NOS PADRES?", de minha autoria, demonstro a incompetência intelectual e moral do clero romano quando se põe a ditar normas no sentido das reformas das nossas estruturas sócioeconômicas. Em seu último capítulo, intitulado "O SUPER CAPITALISMO ECLESIÁSTICO É AMEAÇADO PELA INSTABILIDADE POLÍTICA SOCIAL DA ITÁLIA", patenteio o horror dos seus métodos de vampiro pantagruelicamente ganancioso e relaciono algumas das suas fabulosas e atuais fontes de riqueza. Enquanto os brasileiros lutam, desesperados, para escaparem dessa situação de subdesenvolvimento estrangulante de nossas riquezas, o Ali-Babá do Vaticano se enriquece cada vez mais à custa dos investimentos do ouro e de outras riquezas levadas do Brasil pelos seus clérigos. Convencido da gravidade da situação em Minas Gerais e da sua responsabilidade em recobrar a ordem, o Conde de Assumar decidiu interferir pessoalmente.
Deixando como seu substituto em São Paulo o oficial de grande patente Manuel Bueno da Fonseca, partiu, em fins do mesmo mês de sua posse (setembro de 1717) com destino a Ribeirão do Carmo (hoje Mariana), em Minas Gerais. Naqueles tempos remotos, essa viagem só podia ser feita via Vale do Paraíba (norte do Estado de São Paulo). Guaratinguetá é lU11adas cidades desse Vale. Foi fundada à margem direita do Rio Paraíba, em 1641, pelo Capitão-Mor Dionísio da Costa, lugar-tenente donatário, e, por isso, gozava de grande prestígio até os fins do regime das Capitanias.
O Conde de Assumar chegou, com sua comitiva, nessa cidade, aos 12 de outubro. Prontamente, as autoridades locais, solícitas em aguardá-Io, promoveram-lhe toda sorte de homenagens e respeitos. Por ser o catolicismo a religião oficial do Reino, o vigário destacava-se nas cidades como a autoridade mais importante. O "batizado" pelo padre equivalia ao registro civil. O casamento era só no religioso. Quem não era fcialhtóolsic. o, como um criminoso lesa-pátria, não podia casar-se e nem registrar os Esta posição do catolicismo outorgava aos vigários o ensejo de serem ótimos arrecadadores de riquezas para o pontífice de Roma. Em Guaratinguetá, encontrava-se, como vigário, o jovem padre José Alves Vilela. Como todo clérigo, conhecia perfeitamente a arte de bajular.
Pelo próprio fato de ser o catolicismo romano a religião oficial do Reino de Portugal, a nomeação dos bispos dependia inteiramente da indicação feita pelo Rei.
O padre Vilela sofria de "bispite" aguda. Do desejo desenfreado de ser bispo! Percebeu na passagem do Conde de Assumar por sua paróquia uma extraordinária oportunidade de, sabujando, credenciar-se às boas graças do Governador, que o apontaria a EI Rei como candidato à mitra.
E mãos à obra! A par das demonstrações cívicas de respeito ao Governador promovidas pela Câmara, o padre Alves Vilela, como autoridade mais importante do lugar, programou festas religiosas de grande aparato para impressionar o homenageado. Desde sempre o clero gostou de se valer de seu ritualismo litúrgico para engodar as autoridades civis com o objetivo de sugar-Ihes subvenções ou propiciar clima para se manter prestigiado. Num dos nossos Estados, os bispos condenaram a candidatura de certo cidadão à governança. Feridas as eleições e vitorioso o candidato anatematizado, os "amantíssimos ordinários" promoveram-lhe demonstrações de "afeto e deferência, culminando a sabujice no dia de sua investidura, com uma missa de "ação de graças" mui solene.
Note-se, a título de informação, que o termo canônico designativo de bispo diocesano é "ordinário". Para se colocar bem diante do Conde Governador, preocupado e zangado com os clérigos bademeiros de Minas Gerais, "promotores de todas as desordens" (Rocha Pombo -loc cit.), o padre Vilela tomou atitude oposta à dos seus colegas. Reconheceu na sua subserviência ao chefe da Capitania uma oportuníssima manobra para conquistar-lhe a simpatia. Entre o clero há traidores dos padres traidores! Enquanto os frades de Minas traíam sua posição de aparentes catequistas, causando badema, o padre Vilela manifestava-se servil.
Nas águas turvas da situação de descrédito em que imergiam os frades, o padre Vilela quis pescar um peixe gordo. a peixe de uma posição perante o Governador favorabilíssima às suas pretensões "bispais". E, como o peixe se pega pela boca, alvitrou oferecer ao Conde um opíparo banquete. Mas um desses banquetes de assinalar marco na história da culinária! Notabilizara-se o Rio Paraíba pelas suas águas piscosas. Por isso, os pratos em peixe distinguiam a cozinha valeparaibana. O banquete oferecido pela comunidade guaratinguetaense ao ilustre viajante, na programação estabelecida pelo incensador clérigo Vil ela revelar-se-ia por grande fartura de peixes nas mais diversas modalidades de tempero.
O jovem e pretensioso vigário divisou no ambiente uma circunstância especialíssima para ser aproveitada naquele acontecimento. E decidiu capitalizar a seu favor a frustração do povo do Vale pelos insucessos das últimas Bandeiras, miragens de esmeraldas se esboraram.
Decepcionado, todavia, não se descoroçoara o povo. Esperava encontrar alguma coisa de notável. Desde o princípio de seu paroquiato, travara Vilela conhecimento com os pescadores de sua freguesia e da região. Deles, e somente deles, é que esperava a mais decidida colaboração nas suas festividades religiosas porque a pesca, naquelcs tempos, acima mesmo da agricultura incipiente, se estabelecia como a mais importante fonte de riquezas do Norte da Capitania.
E, dentre os pescadores seus conhecidos, três• se distinguiam pela espontaneidade em auxiliar, pela singeleza de sua fé e, sobretudo, pelo seu acatamento às solicitações do vigário. Domingos Martins Garcia, João Alves e Felipe Pedroso, os seus nomes!
Procurou-os, então, o clérigo Vilela, incumbindo-lhes da pesca para o banquete-homenagem. Nem estranharam a dedicação e o interesse do seu vigário por aquela pesca. Supunham-no desejoso realmente de exaltar, à vista do Governador, as qualidades da cozinha da Vila, de lhe demonstrar respeito e, certamente, creditar a região a favores futuros.
Admirados, contudo, receberam no dia do banquete (13 de outubro de 1717), manhã cedo, as ordens do vigário no sentido de que lançassem suas redes no Porto de Itaguassú, próximo do Morro dos Coqueiros. Como ativos pescadores, sabiam que os peixes permanecem mais nas partes calmas do rio e não é possível pesca alguma junto de um porto, onde há tanta movimentação.
Toda aquela zona dispunha do Rio Paraíba como principal via de comunicações e transporte. E, dentre os portos, o de Itaguassú se notabilizara por servir vasta extensão.
Em vista de sua própria profissão, entenderam os pescadores a ineficácia da ordem extravagante do vigário. Mas, ingênuos e submissos, obedeceram. Não lhes convinha desacatar o sacerdote ameaçador e capaz de pragueja-los e amaldiçoá-los.
Lançaram a rede na convicção de nada apanhar. Surpresos, porém, retiraram das águas uma imagenzinha de 0,40 metros de altura, talhada, em terra cota escura, nos moldes da Madona de Murilo, que o clero utiIiza como símbolo da "IMACULADA CONCEIÇÃO" de Maria.
Decidiram guardar a imagem aparecida nas águas dentro do embornal e prosseguir além sua tarefa. Obtida a quantidade de pescado exigida pelo clérigo anfitrião, foram à sua residência fazer-lhe a entrega. E, jubilosos, na sua crença ingênua, mostraram ao padre, misturado na comitiva do Governador, a imagem aparecida.
Enternecido o vigário pelo sucesso do seu empreendimento, pois ninguém soubera e nem desconfiara da sua ida durante a madrugada ao Porto de Itaguassú para deixar nas águas aquela imagem, despejava suas expressões religiosas e deslambidas acentuando o "fator milagre" daquela descoberta.
Todo o povo daquela região presente em Guaratinguetá para receber o Governador Conde de Assumar, ludibriado em sua credulidade, exultou o "milagre" sucedido, vinculando-o à santidade do seu vigário e divulgou a notícia à distância.
"Arre! Se falharam as aventuras em busca de esmeraldas, o 'milagre' interveio para dar ao povo desiludido uma preciosidade muito maior!!!", parafusava o padre que, de propósito, havia colocado a imagem nas águas do Porto de Itaguassú.
Na intenção de valorizar o enredo do seu estratagema religioso, achou melhor entregar a estátua a um dos pescadores, Felipe Pedroso, residente no sopé do Morro dos Coqueiros. Retirando-se o Conde de Assumar no seguimento de sua viagem, os fiéis, em procissão, acompanharam o felizardo pescador que, piedosamente, colocou, sob a emoção das circunstâncias, a imagem colorida entre os "santos" do seu tosco oratório.
Inglórios os esforços do vigário Vilela junto ao Governador! Tão assoberbado de problemas em sua curta estada no Brasil à testa da Capitania de São Paulo, não teve sequer a lembrança de sugerir a El Rei o nome do pároco de Guaratinguetá como candidato a bispo de alguma diocese do Reino.
Não se desesperançou o padre. Decidiu incentivar a devoção da senhora aparecida, promovendo atos religiosos na casa de Felipe Pedroso. Quem sabe se o seu nome assim ligado à estatua aparecida "milagrosamente" se encheria de fama e repercutiria nos ouvidos do superstiocíssimo El Rei Dom João V, que ouvia missas sobre missas, distribuía dinheiro a rodo a quantos santos figuravam no calendário, enchia de ouro os conventos e, enlevado por violenta paixão à sua amante, freira Paula, do Convento de Odivelas, alcançou do papa o título Rei Fidelíssimo.
As esmolas lançadas, em grande cópia, no oratório da "santa" permitiram ao vigário sonhador da mitra episcopal repartir com o devoto Felipe Pedroso, que Pôde obter numerário para comprar uma pequena fazenda e construir casa nova em Ponte Alta, também nas proximidades do Porto de Itaguassú, onde entronizou, em oratório novo, a imagem de terra cota aparecida.
A devoção mais importante e mais concorrida nesse local acontecia aos sábados à noite. Sucedeu Felipe Pedroso, após a morte, na incumbência religiosa, o seu filho Atanásio. Um pouco arredio a essas beatices, este herdeiro achou melhor construir fora de casa uma capelinha para se ver livre das importunações dos devotos e transferiu a Silvana da Rocha o mister de puxar as rezas e os cânticos. Primava a rezadeira-mor Silvana em dirigir o rosário dos sábados, incrementando a afluência dos humildes com animados bailes regados a pinga após a reza, na intenção de alegrar os devotos caboclos desprovidos de outros divertimentos.
Os anos se passaram e o nome do padre Alves Vilela, sem ser sugerido nas eleições dos bispos! Em 1742, Dom João V foi acometido de uma paralisia que o imobilizou para sempre, apesar de suas treze jornadas às Caldas da Rainha (nas proximidades de Leiria, que atrai ainda muitas pessoas por ser uma das mais importantes estações termais de Portugal), escoltado por um exército de freiras e padres interesseiros.
O vigário de Guaratinguetá, agora já encanecido, porém esperançoso, mantinha-se ao par de todas as notícias vindas de Além Atlântico. Conhecedor da carolice de El Rei e de sua magnanimidade em proveito dos clérigos, urdiu outra investida com objetivo de atrair as atenções "majestáticas" sobre si
Certo sábado, em 1743, quando os devotos chegaram à capela, surpresos, deram pela falta da santa aparecida. Atônitos ficaram quando SiIvana da Rocha desconhecia também o seu paradeiro, mesmo depois de se informara com Atanásio. Desesperados, correram falar com o vigário, que se fingiu surpreendido. Aconselhou-os, porém, a que dessem uma batida nas redondezas e que não se esquecessem de ir até o alto do Morro dos Coqueiros. Dóceis à orientação do padre, vasculharam todos os recantos e, por fim, subiram os rapazes ao Morro, onde, para alívio geral, encontraram a imagem encostada em uma pedra.
Nessa noite, o rosário foi rezado com mais fervor, os hinos mais vibrantes e o baile mais animado com cachaça abundantemente distribuída na algazarra do reencontro da Senhora Aparecida. Noutros sábados, o fato misterioso se repetiu sem que os pobres devotos percebessem a mão do vigário atrás de tudo. O padre Vil ela, ao sentir-se seguro do êxito de seu plano, num sábado, foi até Ponte Alta puxar ele a reza. Desta feita, ainda outra vez, a busca da imagem fugidiça precedeu o ato religioso, porque o padre ainda outra vez retirara-a às ocultas e levara-a ao Morro. Então, na qualidade de vigário e ministro de Deus, aconselhou o povo devoto que se construísse no alto do Morro dos Coqueiros um templo para a "santa".
"Nossa Senhora", afirmava ele, "quer que se construa uma capela lá no alto do Morro". De imediato, foram abundantes os donativos. Todos queriam concorrer a fim de contentar os desejos da "santa" aparecida, no sentido de que lhe erigissem um templo no cume do Morro dos Coqueiros, conforme havia interpretado o vigário aquelas fugas constantes.
Em cumprimento de exigências eclesiásticas, o padre José Alves Vilela valeu-se do Bispado do Rio de Janeiro, a cuja jurisdição canônica se submetia para requerer a devida licença a fim de edificar o templo. Recorde-se que o Bispado de São Paulo, a cuja jurisdição eclesiástica, posteriormente, pertenceram Aparecida e Guaratinguetá, somente foi criado em 1745.
Na esperança de divulgar nas altas rodas clericais o valor sobrenatural da "santa" aparecida, o que lhe poderia render prestígio junto a EI Rei, salientou em seu requerimento: "... que pelos muitos milagres que tem feito a dita Senhora, a todos aqueles moradores, desejam erigir uma capela com o título da mesma Senhora da Conceição Aparecida, no distrito da dita freguesia em lugar decente e público por concorrerem muitos romeiros a visitar a dita Senhora que se acha até agora em lugar pouco decente ... "
A provisão de licença foi passada na chancelaria do Bispado do Rio de janeiro, em 5 de maio de 1743. E tudo se tomou mais fácil, porquanto, Dona Margarida Nunes Rangel, proprietária do Morro dos Coqueiros, houve por magnanimidade fazer a doação de toda a colina ..
Afluíram donativos abundantes e, a 26 de julho de 1745, o padre Vilela benzeu o templo e rezou nele a primeira missa, suspirando para que EI Rei, o beato sonso Dom João V, se lembrasse dele nas escolhas dos bispos.
Já alquebrado pela idade avançada, morreu, como simples vigário de Guaratinguetá, o padre ambicioso e a Aparecida caiu na vala comum das pequenas capelas do interior brasileiro.
Desgraçadamente os compêndios de História do Brasil adotados por nossas escolas aureolam os padres e os frades do tempo da nossa civilização com as glórias de heróis. Os seus autores sabem que, se disserem a verdade, os seus livros não terão guarida nos ginásios, em grande parte, dirigidos, maquiavelicamente, por padres e freiras, ou que deles recebem “orientação”.
Aquelas nossas informações, acima aspadas, são de Rocha Pombo, registradas em sua História do Brasil( Rio de Janeiro – 1905, volume 6, pagina 245), cuja PRIMEIRA EDIÇÃO deveria ser lida por todo intelectual patrício.
Destaco em caixa alta a PRIMEIRA EDIÇÃO porque as subseqüentes foram criminosamente resumidas e mutiladas. Destas podaram-se todos os informes sobre latrocínios, extorsões, atrocidades e crimes cometidos pelos clérigos missionários.
A maioria dos brasileiros supõe que, naqueles tempos, Portugal açambarcava todo o outro bateado pelos lavangeiros ou garimpado nos veios das rochas. Supõe, também, que, em tempos posteriores, a Inglaterra usurpou-o das bruacas lusitanas. Verdade é que o Reino estabelecia impostos, arrecadados pela quintagem, com o fim de beneficiar o seu erário.
Os frades, contudo, não vieram para o Brasil com missão de catequizar. O historiador Rocha Pombo, no passo já referido, informa-nos que o Conde de Assumar, dentre as questões a enfrentar, tinha de se haver com a da “expulsão de todos os religiosos regulares que não tivessem naquela Província do seu domínio uma função certa, própria do seu apostolado”.
Tinham esses “religiosos” (frades cognominados pela legislação romanista de “religiosos regulares”) outra incumbência bem diversa da apregoada e que causou graves prejuízos ao Brasil. Vieram carrear o ouro para o papa e para o seus conventos na Europa!
O ouro do Brasil, em grande parte, encontrara-se ainda hoje em poder do Vaticano, que o faz ocupar o segundo lugar no mercado desse valor precioso, cujas reservas o papa deposita no Federal Reserve Bank, em Washington. O papado não ocupa o primeiro lugar no mundo nesse mercado porque preferiu trocar uma parte do seu ouro com outros valores, como dólares, que atingem a cifra astronômica de 90 bilhões, e em títulos de sociedades italianas avaliados em 9 trilhões de liras e de sociedades de outros países cotados em 8 bilhões de libras esterlinas. E essa riqueza fabulosa e atual do Vaticano o faz o maior acionário de todo o mundo!
No livro "PODER-SE-Á CONFIAR NOS PADRES?", de minha autoria, demonstro a incompetência intelectual e moral do clero romano quando se põe a ditar normas no sentido das reformas das nossas estruturas sócioeconômicas. Em seu último capítulo, intitulado "O SUPER CAPITALISMO ECLESIÁSTICO É AMEAÇADO PELA INSTABILIDADE POLÍTICA SOCIAL DA ITÁLIA", patenteio o horror dos seus métodos de vampiro pantagruelicamente ganancioso e relaciono algumas das suas fabulosas e atuais fontes de riqueza. Enquanto os brasileiros lutam, desesperados, para escaparem dessa situação de subdesenvolvimento estrangulante de nossas riquezas, o Ali-Babá do Vaticano se enriquece cada vez mais à custa dos investimentos do ouro e de outras riquezas levadas do Brasil pelos seus clérigos. Convencido da gravidade da situação em Minas Gerais e da sua responsabilidade em recobrar a ordem, o Conde de Assumar decidiu interferir pessoalmente.
Deixando como seu substituto em São Paulo o oficial de grande patente Manuel Bueno da Fonseca, partiu, em fins do mesmo mês de sua posse (setembro de 1717) com destino a Ribeirão do Carmo (hoje Mariana), em Minas Gerais. Naqueles tempos remotos, essa viagem só podia ser feita via Vale do Paraíba (norte do Estado de São Paulo). Guaratinguetá é lU11adas cidades desse Vale. Foi fundada à margem direita do Rio Paraíba, em 1641, pelo Capitão-Mor Dionísio da Costa, lugar-tenente donatário, e, por isso, gozava de grande prestígio até os fins do regime das Capitanias.
O Conde de Assumar chegou, com sua comitiva, nessa cidade, aos 12 de outubro. Prontamente, as autoridades locais, solícitas em aguardá-Io, promoveram-lhe toda sorte de homenagens e respeitos. Por ser o catolicismo a religião oficial do Reino, o vigário destacava-se nas cidades como a autoridade mais importante. O "batizado" pelo padre equivalia ao registro civil. O casamento era só no religioso. Quem não era fcialhtóolsic. o, como um criminoso lesa-pátria, não podia casar-se e nem registrar os Esta posição do catolicismo outorgava aos vigários o ensejo de serem ótimos arrecadadores de riquezas para o pontífice de Roma. Em Guaratinguetá, encontrava-se, como vigário, o jovem padre José Alves Vilela. Como todo clérigo, conhecia perfeitamente a arte de bajular.
Pelo próprio fato de ser o catolicismo romano a religião oficial do Reino de Portugal, a nomeação dos bispos dependia inteiramente da indicação feita pelo Rei.
O padre Vilela sofria de "bispite" aguda. Do desejo desenfreado de ser bispo! Percebeu na passagem do Conde de Assumar por sua paróquia uma extraordinária oportunidade de, sabujando, credenciar-se às boas graças do Governador, que o apontaria a EI Rei como candidato à mitra.
E mãos à obra! A par das demonstrações cívicas de respeito ao Governador promovidas pela Câmara, o padre Alves Vilela, como autoridade mais importante do lugar, programou festas religiosas de grande aparato para impressionar o homenageado. Desde sempre o clero gostou de se valer de seu ritualismo litúrgico para engodar as autoridades civis com o objetivo de sugar-Ihes subvenções ou propiciar clima para se manter prestigiado. Num dos nossos Estados, os bispos condenaram a candidatura de certo cidadão à governança. Feridas as eleições e vitorioso o candidato anatematizado, os "amantíssimos ordinários" promoveram-lhe demonstrações de "afeto e deferência, culminando a sabujice no dia de sua investidura, com uma missa de "ação de graças" mui solene.
Note-se, a título de informação, que o termo canônico designativo de bispo diocesano é "ordinário". Para se colocar bem diante do Conde Governador, preocupado e zangado com os clérigos bademeiros de Minas Gerais, "promotores de todas as desordens" (Rocha Pombo -loc cit.), o padre Vilela tomou atitude oposta à dos seus colegas. Reconheceu na sua subserviência ao chefe da Capitania uma oportuníssima manobra para conquistar-lhe a simpatia. Entre o clero há traidores dos padres traidores! Enquanto os frades de Minas traíam sua posição de aparentes catequistas, causando badema, o padre Vilela manifestava-se servil.
Nas águas turvas da situação de descrédito em que imergiam os frades, o padre Vilela quis pescar um peixe gordo. a peixe de uma posição perante o Governador favorabilíssima às suas pretensões "bispais". E, como o peixe se pega pela boca, alvitrou oferecer ao Conde um opíparo banquete. Mas um desses banquetes de assinalar marco na história da culinária! Notabilizara-se o Rio Paraíba pelas suas águas piscosas. Por isso, os pratos em peixe distinguiam a cozinha valeparaibana. O banquete oferecido pela comunidade guaratinguetaense ao ilustre viajante, na programação estabelecida pelo incensador clérigo Vil ela revelar-se-ia por grande fartura de peixes nas mais diversas modalidades de tempero.
O jovem e pretensioso vigário divisou no ambiente uma circunstância especialíssima para ser aproveitada naquele acontecimento. E decidiu capitalizar a seu favor a frustração do povo do Vale pelos insucessos das últimas Bandeiras, miragens de esmeraldas se esboraram.
Decepcionado, todavia, não se descoroçoara o povo. Esperava encontrar alguma coisa de notável. Desde o princípio de seu paroquiato, travara Vilela conhecimento com os pescadores de sua freguesia e da região. Deles, e somente deles, é que esperava a mais decidida colaboração nas suas festividades religiosas porque a pesca, naquelcs tempos, acima mesmo da agricultura incipiente, se estabelecia como a mais importante fonte de riquezas do Norte da Capitania.
E, dentre os pescadores seus conhecidos, três• se distinguiam pela espontaneidade em auxiliar, pela singeleza de sua fé e, sobretudo, pelo seu acatamento às solicitações do vigário. Domingos Martins Garcia, João Alves e Felipe Pedroso, os seus nomes!
Procurou-os, então, o clérigo Vilela, incumbindo-lhes da pesca para o banquete-homenagem. Nem estranharam a dedicação e o interesse do seu vigário por aquela pesca. Supunham-no desejoso realmente de exaltar, à vista do Governador, as qualidades da cozinha da Vila, de lhe demonstrar respeito e, certamente, creditar a região a favores futuros.
Admirados, contudo, receberam no dia do banquete (13 de outubro de 1717), manhã cedo, as ordens do vigário no sentido de que lançassem suas redes no Porto de Itaguassú, próximo do Morro dos Coqueiros. Como ativos pescadores, sabiam que os peixes permanecem mais nas partes calmas do rio e não é possível pesca alguma junto de um porto, onde há tanta movimentação.
Toda aquela zona dispunha do Rio Paraíba como principal via de comunicações e transporte. E, dentre os portos, o de Itaguassú se notabilizara por servir vasta extensão.
Em vista de sua própria profissão, entenderam os pescadores a ineficácia da ordem extravagante do vigário. Mas, ingênuos e submissos, obedeceram. Não lhes convinha desacatar o sacerdote ameaçador e capaz de pragueja-los e amaldiçoá-los.
Lançaram a rede na convicção de nada apanhar. Surpresos, porém, retiraram das águas uma imagenzinha de 0,40 metros de altura, talhada, em terra cota escura, nos moldes da Madona de Murilo, que o clero utiIiza como símbolo da "IMACULADA CONCEIÇÃO" de Maria.
Decidiram guardar a imagem aparecida nas águas dentro do embornal e prosseguir além sua tarefa. Obtida a quantidade de pescado exigida pelo clérigo anfitrião, foram à sua residência fazer-lhe a entrega. E, jubilosos, na sua crença ingênua, mostraram ao padre, misturado na comitiva do Governador, a imagem aparecida.
Enternecido o vigário pelo sucesso do seu empreendimento, pois ninguém soubera e nem desconfiara da sua ida durante a madrugada ao Porto de Itaguassú para deixar nas águas aquela imagem, despejava suas expressões religiosas e deslambidas acentuando o "fator milagre" daquela descoberta.
Todo o povo daquela região presente em Guaratinguetá para receber o Governador Conde de Assumar, ludibriado em sua credulidade, exultou o "milagre" sucedido, vinculando-o à santidade do seu vigário e divulgou a notícia à distância.
"Arre! Se falharam as aventuras em busca de esmeraldas, o 'milagre' interveio para dar ao povo desiludido uma preciosidade muito maior!!!", parafusava o padre que, de propósito, havia colocado a imagem nas águas do Porto de Itaguassú.
Na intenção de valorizar o enredo do seu estratagema religioso, achou melhor entregar a estátua a um dos pescadores, Felipe Pedroso, residente no sopé do Morro dos Coqueiros. Retirando-se o Conde de Assumar no seguimento de sua viagem, os fiéis, em procissão, acompanharam o felizardo pescador que, piedosamente, colocou, sob a emoção das circunstâncias, a imagem colorida entre os "santos" do seu tosco oratório.
Inglórios os esforços do vigário Vilela junto ao Governador! Tão assoberbado de problemas em sua curta estada no Brasil à testa da Capitania de São Paulo, não teve sequer a lembrança de sugerir a El Rei o nome do pároco de Guaratinguetá como candidato a bispo de alguma diocese do Reino.
Não se desesperançou o padre. Decidiu incentivar a devoção da senhora aparecida, promovendo atos religiosos na casa de Felipe Pedroso. Quem sabe se o seu nome assim ligado à estatua aparecida "milagrosamente" se encheria de fama e repercutiria nos ouvidos do superstiocíssimo El Rei Dom João V, que ouvia missas sobre missas, distribuía dinheiro a rodo a quantos santos figuravam no calendário, enchia de ouro os conventos e, enlevado por violenta paixão à sua amante, freira Paula, do Convento de Odivelas, alcançou do papa o título Rei Fidelíssimo.
As esmolas lançadas, em grande cópia, no oratório da "santa" permitiram ao vigário sonhador da mitra episcopal repartir com o devoto Felipe Pedroso, que Pôde obter numerário para comprar uma pequena fazenda e construir casa nova em Ponte Alta, também nas proximidades do Porto de Itaguassú, onde entronizou, em oratório novo, a imagem de terra cota aparecida.
A devoção mais importante e mais concorrida nesse local acontecia aos sábados à noite. Sucedeu Felipe Pedroso, após a morte, na incumbência religiosa, o seu filho Atanásio. Um pouco arredio a essas beatices, este herdeiro achou melhor construir fora de casa uma capelinha para se ver livre das importunações dos devotos e transferiu a Silvana da Rocha o mister de puxar as rezas e os cânticos. Primava a rezadeira-mor Silvana em dirigir o rosário dos sábados, incrementando a afluência dos humildes com animados bailes regados a pinga após a reza, na intenção de alegrar os devotos caboclos desprovidos de outros divertimentos.
Os anos se passaram e o nome do padre Alves Vilela, sem ser sugerido nas eleições dos bispos! Em 1742, Dom João V foi acometido de uma paralisia que o imobilizou para sempre, apesar de suas treze jornadas às Caldas da Rainha (nas proximidades de Leiria, que atrai ainda muitas pessoas por ser uma das mais importantes estações termais de Portugal), escoltado por um exército de freiras e padres interesseiros.
O vigário de Guaratinguetá, agora já encanecido, porém esperançoso, mantinha-se ao par de todas as notícias vindas de Além Atlântico. Conhecedor da carolice de El Rei e de sua magnanimidade em proveito dos clérigos, urdiu outra investida com objetivo de atrair as atenções "majestáticas" sobre si
Certo sábado, em 1743, quando os devotos chegaram à capela, surpresos, deram pela falta da santa aparecida. Atônitos ficaram quando SiIvana da Rocha desconhecia também o seu paradeiro, mesmo depois de se informara com Atanásio. Desesperados, correram falar com o vigário, que se fingiu surpreendido. Aconselhou-os, porém, a que dessem uma batida nas redondezas e que não se esquecessem de ir até o alto do Morro dos Coqueiros. Dóceis à orientação do padre, vasculharam todos os recantos e, por fim, subiram os rapazes ao Morro, onde, para alívio geral, encontraram a imagem encostada em uma pedra.
Nessa noite, o rosário foi rezado com mais fervor, os hinos mais vibrantes e o baile mais animado com cachaça abundantemente distribuída na algazarra do reencontro da Senhora Aparecida. Noutros sábados, o fato misterioso se repetiu sem que os pobres devotos percebessem a mão do vigário atrás de tudo. O padre Vil ela, ao sentir-se seguro do êxito de seu plano, num sábado, foi até Ponte Alta puxar ele a reza. Desta feita, ainda outra vez, a busca da imagem fugidiça precedeu o ato religioso, porque o padre ainda outra vez retirara-a às ocultas e levara-a ao Morro. Então, na qualidade de vigário e ministro de Deus, aconselhou o povo devoto que se construísse no alto do Morro dos Coqueiros um templo para a "santa".
"Nossa Senhora", afirmava ele, "quer que se construa uma capela lá no alto do Morro". De imediato, foram abundantes os donativos. Todos queriam concorrer a fim de contentar os desejos da "santa" aparecida, no sentido de que lhe erigissem um templo no cume do Morro dos Coqueiros, conforme havia interpretado o vigário aquelas fugas constantes.
Em cumprimento de exigências eclesiásticas, o padre José Alves Vilela valeu-se do Bispado do Rio de Janeiro, a cuja jurisdição canônica se submetia para requerer a devida licença a fim de edificar o templo. Recorde-se que o Bispado de São Paulo, a cuja jurisdição eclesiástica, posteriormente, pertenceram Aparecida e Guaratinguetá, somente foi criado em 1745.
Na esperança de divulgar nas altas rodas clericais o valor sobrenatural da "santa" aparecida, o que lhe poderia render prestígio junto a EI Rei, salientou em seu requerimento: "... que pelos muitos milagres que tem feito a dita Senhora, a todos aqueles moradores, desejam erigir uma capela com o título da mesma Senhora da Conceição Aparecida, no distrito da dita freguesia em lugar decente e público por concorrerem muitos romeiros a visitar a dita Senhora que se acha até agora em lugar pouco decente ... "
A provisão de licença foi passada na chancelaria do Bispado do Rio de janeiro, em 5 de maio de 1743. E tudo se tomou mais fácil, porquanto, Dona Margarida Nunes Rangel, proprietária do Morro dos Coqueiros, houve por magnanimidade fazer a doação de toda a colina ..
Afluíram donativos abundantes e, a 26 de julho de 1745, o padre Vilela benzeu o templo e rezou nele a primeira missa, suspirando para que EI Rei, o beato sonso Dom João V, se lembrasse dele nas escolhas dos bispos.
Já alquebrado pela idade avançada, morreu, como simples vigário de Guaratinguetá, o padre ambicioso e a Aparecida caiu na vala comum das pequenas capelas do interior brasileiro.
A RAZÃO DO NOVO SURTO DO "APARECIDISMO"
Em fins do século passado, Aparecida foi tirada da sua insignificância, onde permanecera por mais de cem anos após a morte de seu criador, o vigário José Alves Vilela.
Em 8 de dezembro de 1888, o bispo de São Paulo, Dom Lino Deodato de Carvalho, benzeu um novo templo construido em substituição ao anterior erigido pelo sacerdote inventor da "santa", e resolveu entregá-lo à administração de alguma ordem ou congregação religiosa .
A congregação dos padres redentoristas gozava, na época, de grande nomeada nos círculos romanistas, pois o seu fundador, o italiano Afonso de Liguori, além de ser canonizado santo, em 1839, havia sido, em 1871, proclamado pelo papa Pio IX "doutor da Igreja". Dentre as suas diversas obras literárias, destacam-se a "Teologia Moral" e as "Instruções e Método para os Confessores", pelo seu conteúdo referto de normas utilizáveis com grande resultado no confessionário, o instrumento infernal da escravização das consciências.
Por causa da "importância" de Liguori, cresceu a influência de sua ordem religiosa e também, em razão de sua finalidade, que consiste em se disporem os padres, seus membros, a pregar missões populares.
Distinguem-se estas por uma série de pregações retumbantes e fantasmagóricas como arremates de procissões imbecilizadoras. Liguori estabeleceu a sua congregação para a Itália Meridional do seu tempo, com uma população rural ignorante e de sangue quente. Referindo-se a estes italianos, o clérigo redentorista Hitz observa: "Gostam das manifestações fortes ... São superficiais, levianos, desmazelados, supersticiosos e apegam-se, sobretudo, às práticas exteriores da religião" (Hitz - "A pregação missionária do Evangelho", Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1962, página 181). Foi para conservar esse povo agrilhoado às superstições romanistas, assim considerado pelos seus líderes religiosos,que Liguori determinou, com minúcias, os temas e os esquemas dos sermões das "santas missões" a serem pregadas por seus padres. No plano do fundador dos padres redentoristas, os fiéis devem, ao final desse trabalho, ser encaminhados ao confessionário para que se consume o seu cativeiro espiritual.
As "santas missões" dos redentoristas fundam-se num moralismo antropocêntrico, infinitamente distante do Evangelho. Aliás, servem bem ao romanismo, cujo ritual coloca o endeusamento da criatura acima de tudo. O bispo de São Paulo, Dom Lino Deodato de Carvalho, julgou os brasileiros semelhantes aos depreciados italianos meridionais por estarem também os nossos patrícios, seus contemporâneos, encharcados das superstições católicas. E entregou o templo da Senhora Aparecida à direção dos padres redentoristas em fins de 1894.
Esses padres, incontinenti, começaram suas incursões fanatizadoras pelo interior dos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio de Janeiro, por meio das missões populares, quando divulgaram profusamente as lendas referentes à Senhora Aparecida. O nosso povo, humilde e distante das fontes puras da Bíblia, aceitou, ingenuamente e sem qualquer exame, essa fábula que também eu em criança ouvi.
Pelo confessionário, os redentoristas impunham aos fiéis, narcotizados com as suas mentiras e modelados aos seus caprichos, penitências de rezar fórmulas especiais à Aparecida e de ir ao seu santuário em romarias. O povo, desprovido de recursos essenciais a uma subsistência condigna e imerso nas trevas do analfabetismo, é sempre presa fácil dos embusteiros, máxime quando se apresentam revestidos de roupagens exóticas e com a voz repassada de acentos ameaçadores. Os pregoeiros do "aparecidismo" espalharam entre o nosso pobre e abandonado povo, no intuito de fanatizá-Io e escravizá-Io mais, aquela deslambida "Oração a Nossa Senhora Aparecida para pedir sua proteção", que assim começa: "Oh! Incomparável Senhora da Conceição, Mãe de Deus, rainha dos anjos, advogada dos pecadores, ..." Em seguida a esta relação de tantas heresias, o povo brasileiro suplica-lhe que o livre da "peste, fome, guerra, trovões, raios, tempestades e outros perigos e males que nos possam flagelar".
Aconselhado pelo missionário, o simplório cola o papel dessa reza atrás das portas da sua casa e se supõe imunizado, protegido e livre de todas as suas desgraças. Quando eu era pároco em Guaratinguetá, num domingo, fui rezar missa numa capela da zona rural. Desabara durante a noite precedente um horrendo temporal. E a notícia lúgubre enchia de tristeza todos os moradores da região! Um raio penetrara numa choça e fulminara todos os seus moradores.
Encaminhei-me para lá. Entrei no casebre. Olhos esgazeados de pavor, encontrei três corpos esturricados no chão. E atrás das portas toscas a protetora reza da "incomparável" ...
As primeiras "santas missões" populares produziram os frutos esperados. Já em 1900 começaram as romarias. O novo bispo de São Paulo, Dom Antonio Cândido de Alvarenga, continuou o interesse do seu antecessor, Dom Lino, pela Aparecida, pois previa os resultados financeiros com o comércio da credulidade das massas. Em consequência, não só incentivou os vigários das paróquias a promoverem romarias, mas ele pessoalmente organizou uma.
A comercialização e a traficância da devoção à Senhora Aparecida tornaram-se rendosas, além de todas as estimativas, e o bispo de São Paulo não admitiu se tornasse ela paróquia da Diocese de Taubaté. Com efeito, em julho de 1908, o papa Pio X desmembrou da Diocese de São Paulo, que abrangia todo o território do Estado, as dioceses de Botucatu, Campinas, São Carlos, Ribeirão Preto e Taubaté. Esta incluía todo o Norte do Estado de São Paulo, desde o município de JacareÍ, inclusive, até o limite do Estado Fluminense, à exceção de Aparecida que, apesar de encravada bem no centro do bispado de Taubaté, continuava pertencendo à jurisdição eclesiástica do arcebispo de São Paulo.
Ocorreu esta anomalia escandalosa como resultado da ganância do arcebispo, ávido de se locupletar com as fortunas continuamente depositadas nos cofres da Senhora Aparecida.
Em 1931, conforme j á referimos, vieram sua proclamação e coroação como padroeira e rainha do Brasil, em execução de uma astúcia política. Antes, o padroeiro do Brasil era "São" Pedro de Alcântara que, por haver sido membro de ilustre e principesca família espanhola durante o domínio da Espanha sobre o Reino de Portugal, obtivera de Roma esse "padroado".
Os tempos eram outros e o povo brasileiro não se tornara fã do frade espanhol. Então, os "ordinários" brasileiros decidiram aposentá-Io e arranjar do papa um outro padroeiro.
Afora o prestígio popular, o candidato, por certo, precisaria satisfazer injunções políticas e ter a sua meca localizada onde houvesse maior concentração demográfica.
A paraense Senhora de Nazaré, a capixaba Senhora da Penha e o baiano Senhor do Bonfim, se bem que prestigiados popularmente em suas regiões, careciam satisfazer as outras condições. Cumprindo-as todas, a Senhora Aparecida foi a eleita.
Mais recentemente, em junho de 1958, o papa Pio XII criou a Arquidiocese de Aparecida, com o território da paróquia do mesmo nome desmembrado da Arquidiocese de São Paulo, e de outras paróquias retiradas da Diocese de Taubaté. Não obstante, porém, todas as promoções em torno da divulgação dos "fatos" relacionados com a Aparecida, das demonstrações de fé na mesma, da romarias, de suas imensas riquezas ... Não obstante os padres afirmarem (da boca pra for!) que crêem na aparição prodigiosa da Senhora Aparecida ...Apesar da oferta da Rosa de Ouro pelo pontífice Paulo VI e sua aparatosa entrega em agosto de 1967... Apesar de tudo isto, até hoje, o Vaticano se conservou silencioso a respeito.
Desafio a qualquer padre de Aparecida a que me apresente um documento do pontífice romano pelo qual se haja pronunciado sobre a autenticidade dos "acontecimentos religiosos" pelo clero divulgados entre o povo.
Eles não aceitam o desafio porque nem o papa crê nesse "prodígio". Bem ao contrário! Ele sabe que tudo é falcatrua. E falcatrua tão mal engendrada que nem é capaz de forjar documentos, tática tão de sua índole.
A fim de dar aos padres reptados uma dose de calmante, apresento-lhes o parecer do monge beneditino Estevão Bettencourt: "AS AUTORIDADES ECLESIÁSTICAS NÃO SE EMPENHAM POR DEFINIR A AUTENTICIDADE DE TAIS PORTENTOS, NEM MESMO A DOS EPISÓDIOS CONCERNENTES À APARIÇÃO DA SENHORA IMACULADA NO PORTO DE ITAGUASSÚ, EM 1717 ... A SANTA IGREJA, DE MODO NENHUM, ENTENDE FAZER DE TAIS RELATOS MATÉRIA DE FÉ..." (in "PERGUNTE E RESPONDEREMOS", 71/1963, qu.5).
Católico! Não continue enganado! Use a cabeça para raciocinar e não vá mais no conto do vigário! O próprio monge beneditino Estevão Bettencourt declara que aquilo tudo não é "matéria de fé". Ele não crê! Nem os padres prestam fé aos seus relatos sobre a Senhora Aparecida!
A SANTACAP, "CAPITAL MARIANA" DO PAÍS
Elevada, em 1958, à categoria de Arquidiocese, só em 1964 recebeu o seu arcebispo na pessoa do Cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, até então ocupante do sólio paulopolitano. Motta sempre se revelara interessado em promover Aparecida e, com habilidade política peculiar ao seu temperamento, conseguiu da Santa Sé contemporizasse a nomeação do seu titular, pois desejava ser ele o investido no munus de arcebispo da "capital brasileira da fé".
Se envidara esforços para a sua instalação como Arquidiocese, parecer-lhe-ia de justiça instalar-se ele próprio em seu trono arquiepiscopal, embora 6 anos devessem decorrer como sede vacante. Idealizara e empenhara-se em transformar Aparecida num dos centros católicos mais importantes do mundo. Seria nesse intento insuficiente a devoção popular à Senhora Aparecida. Aliás, aquela efervescência de fé incrementada pelo IV Congresso Eucarístico de São Paulo, celebrado em 1942, fora passageiro.
Como arcebispo de São Paulo, a cuja arquidiocese pertencia a simples paróquia de Aparecida, Motta notara na segunda metade da década de 40 o decréscimo do número de peregrinos em proporção com o aumento populacional do País e com a imensa propaganda intensificada através da distribuição; sobretudo às paróquias, de imagens fac-símiles.
Insuficiente a devoção como fundamento para concretizar o seu sonho de criar a SANTACAP, à imitação dos grandes e antigos centros idólatras do mundo, como Éfeso com a sua Senhora Diana, em cuja honra se construíra uma das sete maravilhas do orbe, o Cardeal Vasconcelos Morta optou pela construção de um grande e soberbo templo. Uma Basílica gigantesca e de ricas proporções arquitetônicas a se credenciar ao orgulho do catolicismo brasileiro.
"O maior templo religioso do mundo, depois da Basílica de São Pedro, em Roma!!l" A Basílica de São Pedro tem 200 metros de comprimento, incluindo-se o pórtico. A de Aparecida tem 170. E, depois dela, vem a de São Paulo, em Londres, com 158 metros. Esta é seguida do templo de Liverpool, também na Inglaterra, que mede 154 metros de comprimento. Seguem-se-lhe o Duomo, em Florença, na Itália, com 150; o de Colônia, na Alemanha, com 145; o da Imaculada, em Washington, EUA, com 137; o Duomo, em Milão, com 135; o templo de Notre Dame, Chartres, na França, com 133; o de Sevilha, na Espanha, com 129; o de São João de Latrão, em Roma, com 124; o de São Paulo, no Brasil, com 100; o de S. Patrik, em Nova Iorque, EUA, com 99; o de Santa Maria Maior, em Roma, com 98; o de Beauprais, no Canadá, com 80 metros.
A nova Basílica de Aparecida, quando inteiramente concluída, terá 170 metros de comprimento por 150 metros de largura, cobrindo um espaço de 25.500 metros quadrados. Por sonhar alto, o arcebispo aparecidólatra inclui no plano completo da obra outros departamentos, inclusive o prédio para a emissora radiofônica e de televisão. Em consequência, salta à vista a impossibilidade de se construir no cume do antigo Morro dos Coqueiros, onde se encontra a atual Basílica, apodada de velha.
Recorde-se o fato de haver sido esta erigida no alto daquele Morro em atenção às exigências da própria Senhora Aparecida, inconformada de ficar embaixo e, por isso, "fugia" da capelinha, indo postar-se lá em cima. As suas repetidas "fugas" revelaram (?) aos devotos a sua vontade de lhe ser dedicada uma capela no cocuruto do outeiro, inaugurada, aliás, em 1745, sob o hissopo do vigário José Alves Vilela, ao tempo, pároco em Guaratinguetá.
Esta pequena capela, quando, em fins do século passado, se incrementara a devoção aparecídica, se tornara exígua, foi pelo bispo de São Paulo, Dom Lino Deodato de Carvalho, substituída por um templo no cume do antigo Morro dos Coqueiros.
Afigurava-se impossível desagradar a "santa" e contrariar-lhe a mariana vontade .de ser instalada .lá em cima da colina, cujos coqueiros cederam lugar ao casario que se comprime em suas rampas. "Constrói-se o templo noutro lugar ...E se depois a imagem aparecida não quiser ficar nele?", decerto refletia o bispo que, aos 8 de dezembro de 1.888, benzeu então a nova Basílica, hoje reputada velha, por ser anacrônica, obsoleta e superada.
Ao Cardeal Motta, embora se confesse devoto aparecidiano, falecem aqueles escrúpulos.
"Como se conseguir tamanha construção do Morro dos Coqueiros? Se são necessários 400 mil metros quadrados de área? Como derrubar todas as casas empoleiradas colina acima? Seria acabar com a cidade..”
A crer-se nos informes clericais, a imagem "milagrosa" saiu do lugar, por ela própria escolhido apenas duas únicas e rápidas vezes: quando de de sua coroação no Rio de Janeiro, em maio de 1931, e, em 14 de julho de 1945 , quando, em São Paulo, esteve numa manifestação político-católica. "Tirar-se a imagem de lá, de sua querida Basílica, é arriscar-se :10 desagrado da Senhora".
Era isso que se proclamava em anos passados. Se o arcebispo aparecidopolitano e empreendedor da nova Basílica acreditasse no "milagre" de haver ela própria escolhido o lugar do seu trono no topo da colina, esta construção seria lá em cima mesmo. Como incorreria em desobediência à Senhora? Jamais! Nem que fosse para gastar todos os milhões de cruzados depositados pelos fiéis devotos nos cofres aos seus pés instalados, com o fim de cobrir as desapropriações da cidade inteira.
Mas a AURI SACRA FAMES - a sagrada fome de ouro - fala mais muito mais alto do que todos os seus escrúpulos ...
E, como resultado, a edificação nova e descomunal da Basílica em outro local, iniciada em 1952,já se encontra acabada. O mais interessante, porém, é que a Senhora mudou de opinião. Assanhou-lhe a vaidade a grandeza do seu novo templo. Para ela transportada, decidiu submeter-se à vontade cardinalícia e se acomodou em seu novo altar erigido num elevado octogonal, a 1,5 metros de altura, com 9 degraus e 10 metros de diâmetro. Ela gosta mais do bem-bom das novíssimas instalações ...
Hoje, para evitar qualquer comentário da oposição ou o raciocínio ele algum devoto mais inteligente, os padres deixaram de mencionar em seus relatos aparecídicos a antiga "vontade" (?) da Senhora fujona. Nos planos clericais, a nova Basílica, pelas suas proporções arquitetônicas e pela sua suntuosidade, deve se constituir no grande motivo de atração de romeiros a elevar Aparecida à categoria de principal centro de peregrinação do mundo, dignificando este País, o mais católico de todos.
Este estilo românico-moderno cobre uma área construída de 25.500 metros quadrados, tendo à sua frente a Praça das Comemorações de 69 mil metros quadrados, com capacidade para cerca de 300 mil pessoas. No interior do templo se estendem três naves de 22 x 40 metros cada, além das naves deambulatórias ou de circulação de 7 metros de largura cada uma num desenvolvimento de 340 metros. As capelas sacramentais, onde administram os chamados sacramentos do batismo, da confissão, da confirmação, da eucaristia e do matrimônio, são de 22 x 38 metros cada. A torre imponente, levantada na superfície de 20 x 20 metros, atinge 100 metros de altura, abrangendo 16andares, com 336janelas de vidro com caixilhos e venezianas de alumínio e consumiu um milhão e meio de tijolos.Dois elevadores com capacidade para 60 pessoas transportam os visitantes. Erguida fora do templo, a ele se liga por uma galeria de 36 metros de comprimento, 8 metros de largura e 11 metros de altura. Como seria impossível deixar de ser, no interior da torre os padres instalaram um bar-restaurante e lojas.
Construída a Basílica em forma de cruz grega, a sua cúpula, como uma meia esfera, erguida bem no centro de toda a construção com o diâmetro interno de 34 metros e a altura de 60, cobre 2.327 metros quadrados e é revestida de alumínio anodizado a lhe fornecer uma cor dourada. Esta cúpula sustenta, num pequeno mirante, uma cruz grega de 3 metros de altura, sob cujo centro geométrico se eleva sobre 9 degraus o altar-mor da Basílica, de 10 metros de diâmetro, a ostentar, em nicho de ouro, a imagem da Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil, recoberta de jóias e pedrarias preciosas, onde imensa população padece de fome e sofre a carência dos recursos básicos para uma vida digna.
Ao redor deste soberbo altar-mor, em torno da plataforma, se enumeram 12 pequenos altares a permitir a celebração simultânea de 13missas, o supremo culto idólatra do catolicismo, em homenagem à aparecidolatria.
Por considerarem antiquado o método, os padres redentoristas responsáveis pela administração da Basílica e pela promoção do aparecidismo, hoje em dia, deixaram de utilizar tanto as chamadas "santas missões" inculcadas pelo seu fundador, Afonso de Liguori, nos estatutos da ordem. Prevalecem-se de meios mecânicos de divulgação, como jornal e rádio.
A Rádio Aparecida, pela sua potencialidade, se emparelha com a grandeza material da nova Basílica e se capacita a atender os planos de incrementar sempre mais a aparecidolatria. Reservaram-se 12 mil metros quadrados dentro da área dos 400 mil para erguer um prédio dividido em 3 pavimentos.
O térreo se reserva para um auditório com a capacidade de alojar 1.500 pessoas, que terão o seu cinema. No 10 pavimento, ficam os escritórios, uma capela e o salão nobre destinado às reuniões do Clube dos Sócios com cerca de 400 mil arrolados. O 20 andar se destina à instalação de todo o equipamento da Rádio Aparecida, que deverá ser a mais potente emissora da América Latina, e da futura TV, com 6 estúdios, um de gravação de peças teatrais e outro de gravação de discos e fitas, além da técnica central de comando dos estúdios e da discoteca, do departamento técnico e do almoxarifado. É a técnica da comunicação superlativamente refinada a serviço da massificação do aparecidismo porque, dentro dos prognósticos clericais, o brasileiro deve continuar agrilhoado aos seus embustes.
A SANTACAP, com a sua descomunal Basílica, pretende reviver a idade áurea da Senhora Diana, cujo templo se contava entre as sete maravilhas do mundo.
Aliás, em Éfeso, aos 11 de outubro de 431, se deu o início oficial da mariolatria com a proclamação do dogma de Maria Mãe de Deus.
Nesta era intitulada de pós-conciliar, quando muitos ainda supõem haver o catolicismo romano se transformado e aberto mão de certas doutrinas contrárias à Bíblia, inclusive as relativas a Maria, a religião do papa recrudesce e reaviva o culto mariolátrico acrescentando-lhe novos dogmas, como o de Maria Mãe da Igreja, que inclui os de Maria Co-Redentora, Advogada, Medianeira e Adjuntora, proclamado aos 21 de novembro de 1964.
Recrudesce e cresce o culto mariolátrico entre o povo pobre subjugado às suas feitiçarias, prestigiando os santuários marianos, centros de romarias e peregrinações.
O próprio papa Paulo VI, em 13 de maio de 1967, viajou até Fátima, em Portugal, com o propósito de oficiar as comemorações cinquentenárias daquela Senhora. À Aparecida ofertou o romano pontífice uma Rosa de Ouro, trazida por um cardeal "a latere", a assinalar a passagem dos seus 250 anos. Dom Humberto Mozzoni, o núncio papal no Brasil, no dia 5 de julho de 1969, ano de sua chegada, viajou à SANTACAP no intento de prestar o seu culto pessoal á Senhora Aparecida. "Vim à cidade de Aparecida", disse ele, "como todo o povo brasileiro, venerar Nossa Senhora Aparecida. E colocar sob sua proteção a minha missão no Brasil" (O Estado de S. Paulo, 6 de julho de 1969).
O Concílio Ecumênico Vaticano II deixou intactas as estruturas romanistas sobre as quais simplesmente passou uma caiação a fim de lhe dar novos ares. E deixou, outrossim, intocáveis os cediços métodos de envolvimento político tão do gosto multissecular do clero. Quando, em 1972, o Brasil celebrou o sesquicentenário de sua Independência, quis ele vincular-se oficialmente à sua programação. E, para se promover, nada melhor do que promover a aparecidolatria. Alegou, então, contra todas as evidências, haver Pedro I estado em Aparecida com o fim de rezar diante da imagem, na oportunidade em que pernoitou em Guaratinguetá, quando de sua viagem do Rio de Janeiro a São Paulo, onde proclamara dias seguintes a Independência de nossa Pátria.
Desprovido de qualquer pejo, reivindicou o clero a passagem por Aparecida do coração de Dom Pedro I quando, em 1972, foi de Portugal trazido em definitivo para o Brasil.
Desprovido de qualquer pejo e sem o receio de ser desmascarado, porque o povo evita o trabalho de raciocinar, pois em 1822 nada existia em Aparecida além da pequenina e tosca capela no alto do Morro dos Coqueiros, construída pelo ganancioso padre Vilela. Aparecida continuava ainda incógnita do beatério. Aparecida era ainda o Morro dos Coqueiros. E só Morro dos Coqueiros.
NEM A GANANCIA,
META PRIMORDIAL
DOS CLÉRIGOS "APARECÍDICOS",
ME ABRIU OS OLHOS ...
Sentia, outrossim, a frieza espiritual naquele ambiente de clérigos, profissionais da religião. Sempre os vi tratando das coisas de sua seita com ganância sórdida. Só lhes interessava o que dá lucro.
A respeito de qualquer assunto, a pergunta é sempre a mesma: "Quanto rende?" E vem acompanhada do sinal característico de se friccionarem as pontas dos dedos polegar e indicador. E fazem praça disso até na sua emissora. Certa feita, chegou uma carta, perguntando sobre as riquezas da Senhora Aparecida. Respondeu-a Victor Coelho de Almeida, no seu programa radiofônico: "Sim, 'Nossa Senhora' é muito rica. Rica mesmo! Ela tem hotéis, restaurantes, bares, casas de aluguel (muitas casas de alugue!!), kombi, peruas, automóveis. Ela tem muito dinheiro ...
Dinheiro que os seus fiéis mandam e trazem ... Ela tem muitas jóias, anéis, braceletes, colares. Ela tem muito ouro e pedras preciosas. Até a princesa Isabel lhe deu preciosas jóias. Quem tem ouro e pedras preciosas, mande para 'Nossa Senhora' ..."
A cupidez é tamanha que as suas lojas não respeitam sequer o domingo. Se cerrarem as suas portas, deixarão de ganhar no dia de maior afluência de peregrinos.
O devoto chega para cumprir uma promessa. Compra uma vela na loja pertencente aos padres e, a propósito, situada ao lado da Basílica e anexa à porta de entrada da emissora. Ao entrar no templo, porém, depara-se com a proibição terminante de acender celas. Apresenta-se-Ihe, outrossim, a solução: deixar o brandão numa caixa adrede colocada ao lado do altar da "padroeira".
O "pagador de promessa" sai na doce ilusão de que o padre vai, em sala adequada, queimar a sua vela em honra à santa. Engana-se, porque um dos sacristães recolhe todas as velas ali depositadas, levando-as novamente para a loja. E a vela do devoto caiu no círculo rendoso dos clérigos. Sai da loja. Vai para a caixa da Basílica. Volta à loja. De novo, na Basílica ... E o dinheiro cresce na "caixa registradora" ..,
Tudo lá é comercializado! E os redentoristas não admitem concorrência, nem por parte dos seus colegas de outras igrejas. Num fim de ano, um sacerdote do Rio de Janeiro, com o objetivo de angariar fundos para a construção de um templo., instalou, num terreno alugado, um presépio mecanizado e movido a eletricidade, cobrando dos interessados o ingresso ao local. Pois os padres da Basílica protestaram e obrigaram ao coitado a arrumar "a trouxa e dar o fora".
Todo o mundo só pode ver o presépio deles para lhes deixar o dinheiro. Em Aparecida, arrecadação de esmolas é direito reservado... De todas as partes afluem contribuições para seus cofres. Mas ninguém pode ir lá colher uma migalha ... A ganância atinge os paroxismos da usura!
Fui convidado para celebrar um casamento de pessoas amigas e muito ricas... Por ser sábado à tarde, havia muitos outros. Os noivos, meus amigos, pagaram todas as elevadas propinas estabelecidas pela direção do santuário aparecidano. Na conformidade em que os noivos adentravam no templo, ao som da "marcha nupcial", um servente da Basílica enrolava o grosso tapete de veludo grená. É que, logo atrás, entrava um par de nubentes pobres. Não lhes permitiram as posses pagar a taxa referente ao tapete e tiveram de passar, "sob os olhares maternais da incomparável protetora dos brasileiros", por essa humilhação. O pior ainda aconteceu depois! Chegados junto dos degraus do altar da Senhora Padroeira, foram embargados seus passos pelo referido servente, que os encaminhou a um altar lateral. A noiva, desconsolada, explicou ao sacerdote celebrante de suas núpcias que viera do Paraná precisamente para casar-se no altar da "rainha" em cumprimento de uma promessa. Inúteis seus rogos e vãs as suas lágrimas ... O padre, irritado, alegou que essa promessa não tinha valor algum e "mastigou", em cinco minutos, a fórmula ritual.
Tudo isso me indignava. Mas tudo isso consolidava ainda mais a minha devoção à Senhora Aparecida. Compadecia-me dela por vê-Ia cercada desse deboche e explorada por essa chusma de crápulas.
Um bispo do interior paulista tem carradas de razão ao afirmar que a Aparecida é a vergonha do catolicismo no Brasil! O Concílio Ecumênico Vaticano II, falido desse seu início, foi incapaz de modificar essa situação sempre interessante para o clero cúpido, em cujo peito, ao invés de coração, encontra-se instalado um cofre. O Ministro Mário Andreazza, dos Transportes, a convite, visitou Aparecida, em 13 de julho de 1969. Cercaram-no de salamaleques os clérigos chefiados pelo arcebispo aparecidólatra, o cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Morta, com a sua ladainha de reivindicações em favor da construção da nova Basílica e de outras obras católicas. Surpreendendo o cardeal e os seus sabujos, incontido e sem subterfúgios, o Ministro demonstrou a sua desaprovação à permanência, ao redor da Basílica, das "caixinhas" (pequenas bancas onde são vendidos santinhos, imagens e outros apetrechos aparecídicos).
Quase todos os dias frequentava eu a Basílica, onde permanecia muito tempo rezando, de joelhos, o rosário diante da imagem. Desde tenra infancia, ansiei por certeza de minha salvação eterna. Procurei-a em inúmeras devoções a mim sugeridas ou aconselhadas. Busquei-a no exercício do ministério sacerdotal católico. Macerei-me, chicoteei-me, jejuei ... Vali-me da prática da caridade, criando e dirigindo obras sociais. Tudo em vão ... Em meu livro: "ESTE PADRE ESCAPOU DAS GARRAS DO PAPA", minha biografia, relato os dolorosos lances do meu longo e dilacerante drama interior.
Tomei-me de esperanças quando cheguei a Guaratinguetá. Imensa era minha expectativa de encontrar na Senhora Aparecida a bênção da certeza da vida etema.
Por isso, ia amiúde à igreja rezar longos rosários defronte da sua imagem, no aguardo de uma resposta celestial..
A SURPREENDENTE REVELAÇÃO
Numa tarde de quarta-feira, no começo do ano de 1961, em seguida às funções rituais da "novena perpétua", a que eu assistira, um sacerdote (com um psiu!), tirou-me do meu recolhimento devoto.
Aproximei-me dele.
Perguntou-me à queima-roupa:
"O que você vem fazer aqui quase todos os dias?"
"Rezar à 'Nossa Senhora Aparecida"', respondi-lhe. E, ante o sorriso gracejador do padre, esclareci: "Sou muito devoto de 'Nossa Rainha' e espero dela todas as graças necessárias para a minha salvação eterna ..."
Não pude falar mais porque o padre me interceptou com vivacidade:
"Você parece um beato vulgar. Que lhe poderá dar esta estátua de barro?
Ela não tem valor algum. Nós gostamos dela porque nos traz muito dinheiro".
E, levando as duas mãos aos bolsos, fez o gesto significativo de quem carreia vultosas somas.
Pávido, arrisquei a pergunta:
"Mas ... E os padres não crêem em 'Nossa Senhora Aparecida'''?
Um retumbante NÃO abafou as últimas sílabas da minha interrogação.
"Ela não vale nada. Tanto assim que, se cair do altar, ela se quebra. É de barro!!!"
Saí da Basílica atordoado. Passei a noite seguinte em claro, rememorando os fatos e tirando conclusões. Aterrorizado, sentia esboroarem-se as restantes ilusões da minha vida religiosa.
Encorajado pelo propósito de servir a Deus desvencilhado de todos os embustes, decidi levar até as consequências extremas a minha investigação sobre o assunto.•Não me foi muito difícil. Aproveitei a franqueza daquele sacerdote e, noutro dia, abordei-o novamente. Relatou-me ele os verdadeiros fatos relacionados com a imagem da Senhora Aparecida. Relato este confirmado anteriormente por outros sacerdotes, seus confrades conventuais.
Compadeço-me. do brasileiro,.. Povo de excepcionais qualidades. Inteligente e dotado de sentimentos primorosos. Capaz de heroísmos e tão paciente ... Haverá, porventura, povo mais paciente que o brasileiro? Quanta esperança ele vem revelando em tanto sofrimento ... Em tanta exploração a que é submetido.
Muitas vezes ludibriado em sua boa fé. Porém sempre confiante. É um crime de lesa-humanidade explorar•-se esse povo. Por isso estou revelando estas informações. Desejo ardentemente cooperar com esse povo excepcional em sua libertação dos embusteiros. Eu sei perfeitamente que recrudescerão as perseguições movidas pelo clero contra mim. Mas vale a pena sofrer pela emancipação espiritual do Brasil.
Ao preparar a nova edição deste livro, recordo-me das muitas almas, anteriormente devotas sinceras da "padroeira do Brasil", pela instrumental idade destas páginas, libertas da aparecidolatria e convertidas a Jesus Cristo. Lembro-me, por exemplo, de Dona Glorinha, residente no interior capixaba. Devotíssima da "incomparável Senhora", em romaria, visitava-lhe a imagem pelo menos uma vez cada ano. Pessoa amiga oferecera-Ihe um exemplar deste livro. A curiosidade sobrepujara o seu propósito de recusar a sua leitura, pois temia ofender a sua Senhora Aparecida. Guardá-Io-ia por alguns dias e o devolveria ao proprietário, um crente fiel e ansioso por esclarecer os iludidos. Sua curiosidade, porém, superou a força do seu propósito.
Lendo-o, revoltou-se contra o escritor, atirando-lhe, apesar de distante, insultos pesadíssimos. Quis buscar alívio para os seus remorsos por ter feito semelhante leitura. E foi a Aparecida confessar o seu grande pecado (???).
O sacerdote confessor recriminou-a asperamente por haver lido o livro do "padre excomungado". E impôs-lhe, como penitência, a reza de longas devoções diante do altar da "santa".
Concluída a penitência imposta, saiu à compra de "lembranças" destinadas a parentes, comadres e companheiras da Irmandade do Sagrado Coração.
Separara já medalhas, xícaras, copos, canecos, pratos, quadros... Tudo com dísticos ou decalques da "senhora".
Chegava ao fim a sua tarefa de selecionar as "lembranças", quando os seus olhos se esbugalharam numa coisa horrorosa. Esbugalharam-se num pinico a exibir, colada no seu fundo, a estampa da "incomparável Aparecida".
Indignada, deixou todas as bugigangas sobre o balcão e o comerciante falando sozinho. Regressou à casa. Releu o livro. Procurou o seu proprietário. Ouviu-lhe as explicações pormenorizadas sobre o plano de salvação do pecador. Rendeu-se. Renunciou à idolatria. Arrependeu-se. Converteu-se. Aceitou pela fé Jesus Cristo como o seu ÚNICO e TODO-SUFICIENTE SALVADOR. Crente consagrada, hoje conta a sua experiência de conversão no intuito de levar a Verdade do Evangelho a tantos pobres escravos da aparecidolatria. Brasileiros, a Senhora Aparecida é falcatrua! Éum conto do vigário!
Você, que se supõe seu devoto, está sendo enganado! Você, que tem em sua casa a sua imagem e lhe acende velas, está sendo ludibriado! Você, que lhe manda esmolas, está sendo esbulhado! Você, que vai em romarias à sua Basílica, está sendo ridicularizado!
Sim, senhores! Eu vi os padres zombarem e pilheriarem dos romeiros ... Vi-os praguejar os devotos romeiros que colocam no "sagrado cofre" notas velhas e rotas a lhes exigirem consumo de adesivos ...
A um deles, um devoto perguntou:
"Seu vigário, por que a Senhora Aparecida é morena?" Eis a resposta:
"Porque ela é de barro!!!"
Pobre povo que confia numa protetora feita de barro...
Fonte: Extraído do Livro “A Senhora Aparecida”, Ex-Padre Aníbal Pereira dos Reis, Edições Cristãs, 22ª edição brasileira: 22 de março de 2002.
Em fins do século passado, Aparecida foi tirada da sua insignificância, onde permanecera por mais de cem anos após a morte de seu criador, o vigário José Alves Vilela.
Em 8 de dezembro de 1888, o bispo de São Paulo, Dom Lino Deodato de Carvalho, benzeu um novo templo construido em substituição ao anterior erigido pelo sacerdote inventor da "santa", e resolveu entregá-lo à administração de alguma ordem ou congregação religiosa .
A congregação dos padres redentoristas gozava, na época, de grande nomeada nos círculos romanistas, pois o seu fundador, o italiano Afonso de Liguori, além de ser canonizado santo, em 1839, havia sido, em 1871, proclamado pelo papa Pio IX "doutor da Igreja". Dentre as suas diversas obras literárias, destacam-se a "Teologia Moral" e as "Instruções e Método para os Confessores", pelo seu conteúdo referto de normas utilizáveis com grande resultado no confessionário, o instrumento infernal da escravização das consciências.
Por causa da "importância" de Liguori, cresceu a influência de sua ordem religiosa e também, em razão de sua finalidade, que consiste em se disporem os padres, seus membros, a pregar missões populares.
Distinguem-se estas por uma série de pregações retumbantes e fantasmagóricas como arremates de procissões imbecilizadoras. Liguori estabeleceu a sua congregação para a Itália Meridional do seu tempo, com uma população rural ignorante e de sangue quente. Referindo-se a estes italianos, o clérigo redentorista Hitz observa: "Gostam das manifestações fortes ... São superficiais, levianos, desmazelados, supersticiosos e apegam-se, sobretudo, às práticas exteriores da religião" (Hitz - "A pregação missionária do Evangelho", Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1962, página 181). Foi para conservar esse povo agrilhoado às superstições romanistas, assim considerado pelos seus líderes religiosos,que Liguori determinou, com minúcias, os temas e os esquemas dos sermões das "santas missões" a serem pregadas por seus padres. No plano do fundador dos padres redentoristas, os fiéis devem, ao final desse trabalho, ser encaminhados ao confessionário para que se consume o seu cativeiro espiritual.
As "santas missões" dos redentoristas fundam-se num moralismo antropocêntrico, infinitamente distante do Evangelho. Aliás, servem bem ao romanismo, cujo ritual coloca o endeusamento da criatura acima de tudo. O bispo de São Paulo, Dom Lino Deodato de Carvalho, julgou os brasileiros semelhantes aos depreciados italianos meridionais por estarem também os nossos patrícios, seus contemporâneos, encharcados das superstições católicas. E entregou o templo da Senhora Aparecida à direção dos padres redentoristas em fins de 1894.
Esses padres, incontinenti, começaram suas incursões fanatizadoras pelo interior dos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio de Janeiro, por meio das missões populares, quando divulgaram profusamente as lendas referentes à Senhora Aparecida. O nosso povo, humilde e distante das fontes puras da Bíblia, aceitou, ingenuamente e sem qualquer exame, essa fábula que também eu em criança ouvi.
Pelo confessionário, os redentoristas impunham aos fiéis, narcotizados com as suas mentiras e modelados aos seus caprichos, penitências de rezar fórmulas especiais à Aparecida e de ir ao seu santuário em romarias. O povo, desprovido de recursos essenciais a uma subsistência condigna e imerso nas trevas do analfabetismo, é sempre presa fácil dos embusteiros, máxime quando se apresentam revestidos de roupagens exóticas e com a voz repassada de acentos ameaçadores. Os pregoeiros do "aparecidismo" espalharam entre o nosso pobre e abandonado povo, no intuito de fanatizá-Io e escravizá-Io mais, aquela deslambida "Oração a Nossa Senhora Aparecida para pedir sua proteção", que assim começa: "Oh! Incomparável Senhora da Conceição, Mãe de Deus, rainha dos anjos, advogada dos pecadores, ..." Em seguida a esta relação de tantas heresias, o povo brasileiro suplica-lhe que o livre da "peste, fome, guerra, trovões, raios, tempestades e outros perigos e males que nos possam flagelar".
Aconselhado pelo missionário, o simplório cola o papel dessa reza atrás das portas da sua casa e se supõe imunizado, protegido e livre de todas as suas desgraças. Quando eu era pároco em Guaratinguetá, num domingo, fui rezar missa numa capela da zona rural. Desabara durante a noite precedente um horrendo temporal. E a notícia lúgubre enchia de tristeza todos os moradores da região! Um raio penetrara numa choça e fulminara todos os seus moradores.
Encaminhei-me para lá. Entrei no casebre. Olhos esgazeados de pavor, encontrei três corpos esturricados no chão. E atrás das portas toscas a protetora reza da "incomparável" ...
As primeiras "santas missões" populares produziram os frutos esperados. Já em 1900 começaram as romarias. O novo bispo de São Paulo, Dom Antonio Cândido de Alvarenga, continuou o interesse do seu antecessor, Dom Lino, pela Aparecida, pois previa os resultados financeiros com o comércio da credulidade das massas. Em consequência, não só incentivou os vigários das paróquias a promoverem romarias, mas ele pessoalmente organizou uma.
A comercialização e a traficância da devoção à Senhora Aparecida tornaram-se rendosas, além de todas as estimativas, e o bispo de São Paulo não admitiu se tornasse ela paróquia da Diocese de Taubaté. Com efeito, em julho de 1908, o papa Pio X desmembrou da Diocese de São Paulo, que abrangia todo o território do Estado, as dioceses de Botucatu, Campinas, São Carlos, Ribeirão Preto e Taubaté. Esta incluía todo o Norte do Estado de São Paulo, desde o município de JacareÍ, inclusive, até o limite do Estado Fluminense, à exceção de Aparecida que, apesar de encravada bem no centro do bispado de Taubaté, continuava pertencendo à jurisdição eclesiástica do arcebispo de São Paulo.
Ocorreu esta anomalia escandalosa como resultado da ganância do arcebispo, ávido de se locupletar com as fortunas continuamente depositadas nos cofres da Senhora Aparecida.
Em 1931, conforme j á referimos, vieram sua proclamação e coroação como padroeira e rainha do Brasil, em execução de uma astúcia política. Antes, o padroeiro do Brasil era "São" Pedro de Alcântara que, por haver sido membro de ilustre e principesca família espanhola durante o domínio da Espanha sobre o Reino de Portugal, obtivera de Roma esse "padroado".
Os tempos eram outros e o povo brasileiro não se tornara fã do frade espanhol. Então, os "ordinários" brasileiros decidiram aposentá-Io e arranjar do papa um outro padroeiro.
Afora o prestígio popular, o candidato, por certo, precisaria satisfazer injunções políticas e ter a sua meca localizada onde houvesse maior concentração demográfica.
A paraense Senhora de Nazaré, a capixaba Senhora da Penha e o baiano Senhor do Bonfim, se bem que prestigiados popularmente em suas regiões, careciam satisfazer as outras condições. Cumprindo-as todas, a Senhora Aparecida foi a eleita.
Mais recentemente, em junho de 1958, o papa Pio XII criou a Arquidiocese de Aparecida, com o território da paróquia do mesmo nome desmembrado da Arquidiocese de São Paulo, e de outras paróquias retiradas da Diocese de Taubaté. Não obstante, porém, todas as promoções em torno da divulgação dos "fatos" relacionados com a Aparecida, das demonstrações de fé na mesma, da romarias, de suas imensas riquezas ... Não obstante os padres afirmarem (da boca pra for!) que crêem na aparição prodigiosa da Senhora Aparecida ...Apesar da oferta da Rosa de Ouro pelo pontífice Paulo VI e sua aparatosa entrega em agosto de 1967... Apesar de tudo isto, até hoje, o Vaticano se conservou silencioso a respeito.
Desafio a qualquer padre de Aparecida a que me apresente um documento do pontífice romano pelo qual se haja pronunciado sobre a autenticidade dos "acontecimentos religiosos" pelo clero divulgados entre o povo.
Eles não aceitam o desafio porque nem o papa crê nesse "prodígio". Bem ao contrário! Ele sabe que tudo é falcatrua. E falcatrua tão mal engendrada que nem é capaz de forjar documentos, tática tão de sua índole.
A fim de dar aos padres reptados uma dose de calmante, apresento-lhes o parecer do monge beneditino Estevão Bettencourt: "AS AUTORIDADES ECLESIÁSTICAS NÃO SE EMPENHAM POR DEFINIR A AUTENTICIDADE DE TAIS PORTENTOS, NEM MESMO A DOS EPISÓDIOS CONCERNENTES À APARIÇÃO DA SENHORA IMACULADA NO PORTO DE ITAGUASSÚ, EM 1717 ... A SANTA IGREJA, DE MODO NENHUM, ENTENDE FAZER DE TAIS RELATOS MATÉRIA DE FÉ..." (in "PERGUNTE E RESPONDEREMOS", 71/1963, qu.5).
Católico! Não continue enganado! Use a cabeça para raciocinar e não vá mais no conto do vigário! O próprio monge beneditino Estevão Bettencourt declara que aquilo tudo não é "matéria de fé". Ele não crê! Nem os padres prestam fé aos seus relatos sobre a Senhora Aparecida!
A SANTACAP, "CAPITAL MARIANA" DO PAÍS
Elevada, em 1958, à categoria de Arquidiocese, só em 1964 recebeu o seu arcebispo na pessoa do Cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, até então ocupante do sólio paulopolitano. Motta sempre se revelara interessado em promover Aparecida e, com habilidade política peculiar ao seu temperamento, conseguiu da Santa Sé contemporizasse a nomeação do seu titular, pois desejava ser ele o investido no munus de arcebispo da "capital brasileira da fé".
Se envidara esforços para a sua instalação como Arquidiocese, parecer-lhe-ia de justiça instalar-se ele próprio em seu trono arquiepiscopal, embora 6 anos devessem decorrer como sede vacante. Idealizara e empenhara-se em transformar Aparecida num dos centros católicos mais importantes do mundo. Seria nesse intento insuficiente a devoção popular à Senhora Aparecida. Aliás, aquela efervescência de fé incrementada pelo IV Congresso Eucarístico de São Paulo, celebrado em 1942, fora passageiro.
Como arcebispo de São Paulo, a cuja arquidiocese pertencia a simples paróquia de Aparecida, Motta notara na segunda metade da década de 40 o decréscimo do número de peregrinos em proporção com o aumento populacional do País e com a imensa propaganda intensificada através da distribuição; sobretudo às paróquias, de imagens fac-símiles.
Insuficiente a devoção como fundamento para concretizar o seu sonho de criar a SANTACAP, à imitação dos grandes e antigos centros idólatras do mundo, como Éfeso com a sua Senhora Diana, em cuja honra se construíra uma das sete maravilhas do orbe, o Cardeal Vasconcelos Morta optou pela construção de um grande e soberbo templo. Uma Basílica gigantesca e de ricas proporções arquitetônicas a se credenciar ao orgulho do catolicismo brasileiro.
"O maior templo religioso do mundo, depois da Basílica de São Pedro, em Roma!!l" A Basílica de São Pedro tem 200 metros de comprimento, incluindo-se o pórtico. A de Aparecida tem 170. E, depois dela, vem a de São Paulo, em Londres, com 158 metros. Esta é seguida do templo de Liverpool, também na Inglaterra, que mede 154 metros de comprimento. Seguem-se-lhe o Duomo, em Florença, na Itália, com 150; o de Colônia, na Alemanha, com 145; o da Imaculada, em Washington, EUA, com 137; o Duomo, em Milão, com 135; o templo de Notre Dame, Chartres, na França, com 133; o de Sevilha, na Espanha, com 129; o de São João de Latrão, em Roma, com 124; o de São Paulo, no Brasil, com 100; o de S. Patrik, em Nova Iorque, EUA, com 99; o de Santa Maria Maior, em Roma, com 98; o de Beauprais, no Canadá, com 80 metros.
A nova Basílica de Aparecida, quando inteiramente concluída, terá 170 metros de comprimento por 150 metros de largura, cobrindo um espaço de 25.500 metros quadrados. Por sonhar alto, o arcebispo aparecidólatra inclui no plano completo da obra outros departamentos, inclusive o prédio para a emissora radiofônica e de televisão. Em consequência, salta à vista a impossibilidade de se construir no cume do antigo Morro dos Coqueiros, onde se encontra a atual Basílica, apodada de velha.
Recorde-se o fato de haver sido esta erigida no alto daquele Morro em atenção às exigências da própria Senhora Aparecida, inconformada de ficar embaixo e, por isso, "fugia" da capelinha, indo postar-se lá em cima. As suas repetidas "fugas" revelaram (?) aos devotos a sua vontade de lhe ser dedicada uma capela no cocuruto do outeiro, inaugurada, aliás, em 1745, sob o hissopo do vigário José Alves Vilela, ao tempo, pároco em Guaratinguetá.
Esta pequena capela, quando, em fins do século passado, se incrementara a devoção aparecídica, se tornara exígua, foi pelo bispo de São Paulo, Dom Lino Deodato de Carvalho, substituída por um templo no cume do antigo Morro dos Coqueiros.
Afigurava-se impossível desagradar a "santa" e contrariar-lhe a mariana vontade .de ser instalada .lá em cima da colina, cujos coqueiros cederam lugar ao casario que se comprime em suas rampas. "Constrói-se o templo noutro lugar ...E se depois a imagem aparecida não quiser ficar nele?", decerto refletia o bispo que, aos 8 de dezembro de 1.888, benzeu então a nova Basílica, hoje reputada velha, por ser anacrônica, obsoleta e superada.
Ao Cardeal Motta, embora se confesse devoto aparecidiano, falecem aqueles escrúpulos.
"Como se conseguir tamanha construção do Morro dos Coqueiros? Se são necessários 400 mil metros quadrados de área? Como derrubar todas as casas empoleiradas colina acima? Seria acabar com a cidade..”
A crer-se nos informes clericais, a imagem "milagrosa" saiu do lugar, por ela própria escolhido apenas duas únicas e rápidas vezes: quando de de sua coroação no Rio de Janeiro, em maio de 1931, e, em 14 de julho de 1945 , quando, em São Paulo, esteve numa manifestação político-católica. "Tirar-se a imagem de lá, de sua querida Basílica, é arriscar-se :10 desagrado da Senhora".
Era isso que se proclamava em anos passados. Se o arcebispo aparecidopolitano e empreendedor da nova Basílica acreditasse no "milagre" de haver ela própria escolhido o lugar do seu trono no topo da colina, esta construção seria lá em cima mesmo. Como incorreria em desobediência à Senhora? Jamais! Nem que fosse para gastar todos os milhões de cruzados depositados pelos fiéis devotos nos cofres aos seus pés instalados, com o fim de cobrir as desapropriações da cidade inteira.
Mas a AURI SACRA FAMES - a sagrada fome de ouro - fala mais muito mais alto do que todos os seus escrúpulos ...
E, como resultado, a edificação nova e descomunal da Basílica em outro local, iniciada em 1952,já se encontra acabada. O mais interessante, porém, é que a Senhora mudou de opinião. Assanhou-lhe a vaidade a grandeza do seu novo templo. Para ela transportada, decidiu submeter-se à vontade cardinalícia e se acomodou em seu novo altar erigido num elevado octogonal, a 1,5 metros de altura, com 9 degraus e 10 metros de diâmetro. Ela gosta mais do bem-bom das novíssimas instalações ...
Hoje, para evitar qualquer comentário da oposição ou o raciocínio ele algum devoto mais inteligente, os padres deixaram de mencionar em seus relatos aparecídicos a antiga "vontade" (?) da Senhora fujona. Nos planos clericais, a nova Basílica, pelas suas proporções arquitetônicas e pela sua suntuosidade, deve se constituir no grande motivo de atração de romeiros a elevar Aparecida à categoria de principal centro de peregrinação do mundo, dignificando este País, o mais católico de todos.
Este estilo românico-moderno cobre uma área construída de 25.500 metros quadrados, tendo à sua frente a Praça das Comemorações de 69 mil metros quadrados, com capacidade para cerca de 300 mil pessoas. No interior do templo se estendem três naves de 22 x 40 metros cada, além das naves deambulatórias ou de circulação de 7 metros de largura cada uma num desenvolvimento de 340 metros. As capelas sacramentais, onde administram os chamados sacramentos do batismo, da confissão, da confirmação, da eucaristia e do matrimônio, são de 22 x 38 metros cada. A torre imponente, levantada na superfície de 20 x 20 metros, atinge 100 metros de altura, abrangendo 16andares, com 336janelas de vidro com caixilhos e venezianas de alumínio e consumiu um milhão e meio de tijolos.Dois elevadores com capacidade para 60 pessoas transportam os visitantes. Erguida fora do templo, a ele se liga por uma galeria de 36 metros de comprimento, 8 metros de largura e 11 metros de altura. Como seria impossível deixar de ser, no interior da torre os padres instalaram um bar-restaurante e lojas.
Construída a Basílica em forma de cruz grega, a sua cúpula, como uma meia esfera, erguida bem no centro de toda a construção com o diâmetro interno de 34 metros e a altura de 60, cobre 2.327 metros quadrados e é revestida de alumínio anodizado a lhe fornecer uma cor dourada. Esta cúpula sustenta, num pequeno mirante, uma cruz grega de 3 metros de altura, sob cujo centro geométrico se eleva sobre 9 degraus o altar-mor da Basílica, de 10 metros de diâmetro, a ostentar, em nicho de ouro, a imagem da Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil, recoberta de jóias e pedrarias preciosas, onde imensa população padece de fome e sofre a carência dos recursos básicos para uma vida digna.
Ao redor deste soberbo altar-mor, em torno da plataforma, se enumeram 12 pequenos altares a permitir a celebração simultânea de 13missas, o supremo culto idólatra do catolicismo, em homenagem à aparecidolatria.
Por considerarem antiquado o método, os padres redentoristas responsáveis pela administração da Basílica e pela promoção do aparecidismo, hoje em dia, deixaram de utilizar tanto as chamadas "santas missões" inculcadas pelo seu fundador, Afonso de Liguori, nos estatutos da ordem. Prevalecem-se de meios mecânicos de divulgação, como jornal e rádio.
A Rádio Aparecida, pela sua potencialidade, se emparelha com a grandeza material da nova Basílica e se capacita a atender os planos de incrementar sempre mais a aparecidolatria. Reservaram-se 12 mil metros quadrados dentro da área dos 400 mil para erguer um prédio dividido em 3 pavimentos.
O térreo se reserva para um auditório com a capacidade de alojar 1.500 pessoas, que terão o seu cinema. No 10 pavimento, ficam os escritórios, uma capela e o salão nobre destinado às reuniões do Clube dos Sócios com cerca de 400 mil arrolados. O 20 andar se destina à instalação de todo o equipamento da Rádio Aparecida, que deverá ser a mais potente emissora da América Latina, e da futura TV, com 6 estúdios, um de gravação de peças teatrais e outro de gravação de discos e fitas, além da técnica central de comando dos estúdios e da discoteca, do departamento técnico e do almoxarifado. É a técnica da comunicação superlativamente refinada a serviço da massificação do aparecidismo porque, dentro dos prognósticos clericais, o brasileiro deve continuar agrilhoado aos seus embustes.
A SANTACAP, com a sua descomunal Basílica, pretende reviver a idade áurea da Senhora Diana, cujo templo se contava entre as sete maravilhas do mundo.
Aliás, em Éfeso, aos 11 de outubro de 431, se deu o início oficial da mariolatria com a proclamação do dogma de Maria Mãe de Deus.
Nesta era intitulada de pós-conciliar, quando muitos ainda supõem haver o catolicismo romano se transformado e aberto mão de certas doutrinas contrárias à Bíblia, inclusive as relativas a Maria, a religião do papa recrudesce e reaviva o culto mariolátrico acrescentando-lhe novos dogmas, como o de Maria Mãe da Igreja, que inclui os de Maria Co-Redentora, Advogada, Medianeira e Adjuntora, proclamado aos 21 de novembro de 1964.
Recrudesce e cresce o culto mariolátrico entre o povo pobre subjugado às suas feitiçarias, prestigiando os santuários marianos, centros de romarias e peregrinações.
O próprio papa Paulo VI, em 13 de maio de 1967, viajou até Fátima, em Portugal, com o propósito de oficiar as comemorações cinquentenárias daquela Senhora. À Aparecida ofertou o romano pontífice uma Rosa de Ouro, trazida por um cardeal "a latere", a assinalar a passagem dos seus 250 anos. Dom Humberto Mozzoni, o núncio papal no Brasil, no dia 5 de julho de 1969, ano de sua chegada, viajou à SANTACAP no intento de prestar o seu culto pessoal á Senhora Aparecida. "Vim à cidade de Aparecida", disse ele, "como todo o povo brasileiro, venerar Nossa Senhora Aparecida. E colocar sob sua proteção a minha missão no Brasil" (O Estado de S. Paulo, 6 de julho de 1969).
O Concílio Ecumênico Vaticano II deixou intactas as estruturas romanistas sobre as quais simplesmente passou uma caiação a fim de lhe dar novos ares. E deixou, outrossim, intocáveis os cediços métodos de envolvimento político tão do gosto multissecular do clero. Quando, em 1972, o Brasil celebrou o sesquicentenário de sua Independência, quis ele vincular-se oficialmente à sua programação. E, para se promover, nada melhor do que promover a aparecidolatria. Alegou, então, contra todas as evidências, haver Pedro I estado em Aparecida com o fim de rezar diante da imagem, na oportunidade em que pernoitou em Guaratinguetá, quando de sua viagem do Rio de Janeiro a São Paulo, onde proclamara dias seguintes a Independência de nossa Pátria.
Desprovido de qualquer pejo, reivindicou o clero a passagem por Aparecida do coração de Dom Pedro I quando, em 1972, foi de Portugal trazido em definitivo para o Brasil.
Desprovido de qualquer pejo e sem o receio de ser desmascarado, porque o povo evita o trabalho de raciocinar, pois em 1822 nada existia em Aparecida além da pequenina e tosca capela no alto do Morro dos Coqueiros, construída pelo ganancioso padre Vilela. Aparecida continuava ainda incógnita do beatério. Aparecida era ainda o Morro dos Coqueiros. E só Morro dos Coqueiros.
NEM A GANANCIA,
META PRIMORDIAL
DOS CLÉRIGOS "APARECÍDICOS",
ME ABRIU OS OLHOS ...
Sentia, outrossim, a frieza espiritual naquele ambiente de clérigos, profissionais da religião. Sempre os vi tratando das coisas de sua seita com ganância sórdida. Só lhes interessava o que dá lucro.
A respeito de qualquer assunto, a pergunta é sempre a mesma: "Quanto rende?" E vem acompanhada do sinal característico de se friccionarem as pontas dos dedos polegar e indicador. E fazem praça disso até na sua emissora. Certa feita, chegou uma carta, perguntando sobre as riquezas da Senhora Aparecida. Respondeu-a Victor Coelho de Almeida, no seu programa radiofônico: "Sim, 'Nossa Senhora' é muito rica. Rica mesmo! Ela tem hotéis, restaurantes, bares, casas de aluguel (muitas casas de alugue!!), kombi, peruas, automóveis. Ela tem muito dinheiro ...
Dinheiro que os seus fiéis mandam e trazem ... Ela tem muitas jóias, anéis, braceletes, colares. Ela tem muito ouro e pedras preciosas. Até a princesa Isabel lhe deu preciosas jóias. Quem tem ouro e pedras preciosas, mande para 'Nossa Senhora' ..."
A cupidez é tamanha que as suas lojas não respeitam sequer o domingo. Se cerrarem as suas portas, deixarão de ganhar no dia de maior afluência de peregrinos.
O devoto chega para cumprir uma promessa. Compra uma vela na loja pertencente aos padres e, a propósito, situada ao lado da Basílica e anexa à porta de entrada da emissora. Ao entrar no templo, porém, depara-se com a proibição terminante de acender celas. Apresenta-se-Ihe, outrossim, a solução: deixar o brandão numa caixa adrede colocada ao lado do altar da "padroeira".
O "pagador de promessa" sai na doce ilusão de que o padre vai, em sala adequada, queimar a sua vela em honra à santa. Engana-se, porque um dos sacristães recolhe todas as velas ali depositadas, levando-as novamente para a loja. E a vela do devoto caiu no círculo rendoso dos clérigos. Sai da loja. Vai para a caixa da Basílica. Volta à loja. De novo, na Basílica ... E o dinheiro cresce na "caixa registradora" ..,
Tudo lá é comercializado! E os redentoristas não admitem concorrência, nem por parte dos seus colegas de outras igrejas. Num fim de ano, um sacerdote do Rio de Janeiro, com o objetivo de angariar fundos para a construção de um templo., instalou, num terreno alugado, um presépio mecanizado e movido a eletricidade, cobrando dos interessados o ingresso ao local. Pois os padres da Basílica protestaram e obrigaram ao coitado a arrumar "a trouxa e dar o fora".
Todo o mundo só pode ver o presépio deles para lhes deixar o dinheiro. Em Aparecida, arrecadação de esmolas é direito reservado... De todas as partes afluem contribuições para seus cofres. Mas ninguém pode ir lá colher uma migalha ... A ganância atinge os paroxismos da usura!
Fui convidado para celebrar um casamento de pessoas amigas e muito ricas... Por ser sábado à tarde, havia muitos outros. Os noivos, meus amigos, pagaram todas as elevadas propinas estabelecidas pela direção do santuário aparecidano. Na conformidade em que os noivos adentravam no templo, ao som da "marcha nupcial", um servente da Basílica enrolava o grosso tapete de veludo grená. É que, logo atrás, entrava um par de nubentes pobres. Não lhes permitiram as posses pagar a taxa referente ao tapete e tiveram de passar, "sob os olhares maternais da incomparável protetora dos brasileiros", por essa humilhação. O pior ainda aconteceu depois! Chegados junto dos degraus do altar da Senhora Padroeira, foram embargados seus passos pelo referido servente, que os encaminhou a um altar lateral. A noiva, desconsolada, explicou ao sacerdote celebrante de suas núpcias que viera do Paraná precisamente para casar-se no altar da "rainha" em cumprimento de uma promessa. Inúteis seus rogos e vãs as suas lágrimas ... O padre, irritado, alegou que essa promessa não tinha valor algum e "mastigou", em cinco minutos, a fórmula ritual.
Tudo isso me indignava. Mas tudo isso consolidava ainda mais a minha devoção à Senhora Aparecida. Compadecia-me dela por vê-Ia cercada desse deboche e explorada por essa chusma de crápulas.
Um bispo do interior paulista tem carradas de razão ao afirmar que a Aparecida é a vergonha do catolicismo no Brasil! O Concílio Ecumênico Vaticano II, falido desse seu início, foi incapaz de modificar essa situação sempre interessante para o clero cúpido, em cujo peito, ao invés de coração, encontra-se instalado um cofre. O Ministro Mário Andreazza, dos Transportes, a convite, visitou Aparecida, em 13 de julho de 1969. Cercaram-no de salamaleques os clérigos chefiados pelo arcebispo aparecidólatra, o cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Morta, com a sua ladainha de reivindicações em favor da construção da nova Basílica e de outras obras católicas. Surpreendendo o cardeal e os seus sabujos, incontido e sem subterfúgios, o Ministro demonstrou a sua desaprovação à permanência, ao redor da Basílica, das "caixinhas" (pequenas bancas onde são vendidos santinhos, imagens e outros apetrechos aparecídicos).
Quase todos os dias frequentava eu a Basílica, onde permanecia muito tempo rezando, de joelhos, o rosário diante da imagem. Desde tenra infancia, ansiei por certeza de minha salvação eterna. Procurei-a em inúmeras devoções a mim sugeridas ou aconselhadas. Busquei-a no exercício do ministério sacerdotal católico. Macerei-me, chicoteei-me, jejuei ... Vali-me da prática da caridade, criando e dirigindo obras sociais. Tudo em vão ... Em meu livro: "ESTE PADRE ESCAPOU DAS GARRAS DO PAPA", minha biografia, relato os dolorosos lances do meu longo e dilacerante drama interior.
Tomei-me de esperanças quando cheguei a Guaratinguetá. Imensa era minha expectativa de encontrar na Senhora Aparecida a bênção da certeza da vida etema.
Por isso, ia amiúde à igreja rezar longos rosários defronte da sua imagem, no aguardo de uma resposta celestial..
A SURPREENDENTE REVELAÇÃO
Numa tarde de quarta-feira, no começo do ano de 1961, em seguida às funções rituais da "novena perpétua", a que eu assistira, um sacerdote (com um psiu!), tirou-me do meu recolhimento devoto.
Aproximei-me dele.
Perguntou-me à queima-roupa:
"O que você vem fazer aqui quase todos os dias?"
"Rezar à 'Nossa Senhora Aparecida"', respondi-lhe. E, ante o sorriso gracejador do padre, esclareci: "Sou muito devoto de 'Nossa Rainha' e espero dela todas as graças necessárias para a minha salvação eterna ..."
Não pude falar mais porque o padre me interceptou com vivacidade:
"Você parece um beato vulgar. Que lhe poderá dar esta estátua de barro?
Ela não tem valor algum. Nós gostamos dela porque nos traz muito dinheiro".
E, levando as duas mãos aos bolsos, fez o gesto significativo de quem carreia vultosas somas.
Pávido, arrisquei a pergunta:
"Mas ... E os padres não crêem em 'Nossa Senhora Aparecida'''?
Um retumbante NÃO abafou as últimas sílabas da minha interrogação.
"Ela não vale nada. Tanto assim que, se cair do altar, ela se quebra. É de barro!!!"
Saí da Basílica atordoado. Passei a noite seguinte em claro, rememorando os fatos e tirando conclusões. Aterrorizado, sentia esboroarem-se as restantes ilusões da minha vida religiosa.
Encorajado pelo propósito de servir a Deus desvencilhado de todos os embustes, decidi levar até as consequências extremas a minha investigação sobre o assunto.•Não me foi muito difícil. Aproveitei a franqueza daquele sacerdote e, noutro dia, abordei-o novamente. Relatou-me ele os verdadeiros fatos relacionados com a imagem da Senhora Aparecida. Relato este confirmado anteriormente por outros sacerdotes, seus confrades conventuais.
Compadeço-me. do brasileiro,.. Povo de excepcionais qualidades. Inteligente e dotado de sentimentos primorosos. Capaz de heroísmos e tão paciente ... Haverá, porventura, povo mais paciente que o brasileiro? Quanta esperança ele vem revelando em tanto sofrimento ... Em tanta exploração a que é submetido.
Muitas vezes ludibriado em sua boa fé. Porém sempre confiante. É um crime de lesa-humanidade explorar•-se esse povo. Por isso estou revelando estas informações. Desejo ardentemente cooperar com esse povo excepcional em sua libertação dos embusteiros. Eu sei perfeitamente que recrudescerão as perseguições movidas pelo clero contra mim. Mas vale a pena sofrer pela emancipação espiritual do Brasil.
Ao preparar a nova edição deste livro, recordo-me das muitas almas, anteriormente devotas sinceras da "padroeira do Brasil", pela instrumental idade destas páginas, libertas da aparecidolatria e convertidas a Jesus Cristo. Lembro-me, por exemplo, de Dona Glorinha, residente no interior capixaba. Devotíssima da "incomparável Senhora", em romaria, visitava-lhe a imagem pelo menos uma vez cada ano. Pessoa amiga oferecera-Ihe um exemplar deste livro. A curiosidade sobrepujara o seu propósito de recusar a sua leitura, pois temia ofender a sua Senhora Aparecida. Guardá-Io-ia por alguns dias e o devolveria ao proprietário, um crente fiel e ansioso por esclarecer os iludidos. Sua curiosidade, porém, superou a força do seu propósito.
Lendo-o, revoltou-se contra o escritor, atirando-lhe, apesar de distante, insultos pesadíssimos. Quis buscar alívio para os seus remorsos por ter feito semelhante leitura. E foi a Aparecida confessar o seu grande pecado (???).
O sacerdote confessor recriminou-a asperamente por haver lido o livro do "padre excomungado". E impôs-lhe, como penitência, a reza de longas devoções diante do altar da "santa".
Concluída a penitência imposta, saiu à compra de "lembranças" destinadas a parentes, comadres e companheiras da Irmandade do Sagrado Coração.
Separara já medalhas, xícaras, copos, canecos, pratos, quadros... Tudo com dísticos ou decalques da "senhora".
Chegava ao fim a sua tarefa de selecionar as "lembranças", quando os seus olhos se esbugalharam numa coisa horrorosa. Esbugalharam-se num pinico a exibir, colada no seu fundo, a estampa da "incomparável Aparecida".
Indignada, deixou todas as bugigangas sobre o balcão e o comerciante falando sozinho. Regressou à casa. Releu o livro. Procurou o seu proprietário. Ouviu-lhe as explicações pormenorizadas sobre o plano de salvação do pecador. Rendeu-se. Renunciou à idolatria. Arrependeu-se. Converteu-se. Aceitou pela fé Jesus Cristo como o seu ÚNICO e TODO-SUFICIENTE SALVADOR. Crente consagrada, hoje conta a sua experiência de conversão no intuito de levar a Verdade do Evangelho a tantos pobres escravos da aparecidolatria. Brasileiros, a Senhora Aparecida é falcatrua! Éum conto do vigário!
Você, que se supõe seu devoto, está sendo enganado! Você, que tem em sua casa a sua imagem e lhe acende velas, está sendo ludibriado! Você, que lhe manda esmolas, está sendo esbulhado! Você, que vai em romarias à sua Basílica, está sendo ridicularizado!
Sim, senhores! Eu vi os padres zombarem e pilheriarem dos romeiros ... Vi-os praguejar os devotos romeiros que colocam no "sagrado cofre" notas velhas e rotas a lhes exigirem consumo de adesivos ...
A um deles, um devoto perguntou:
"Seu vigário, por que a Senhora Aparecida é morena?" Eis a resposta:
"Porque ela é de barro!!!"
Pobre povo que confia numa protetora feita de barro...
Fonte: Extraído do Livro “A Senhora Aparecida”, Ex-Padre Aníbal Pereira dos Reis, Edições Cristãs, 22ª edição brasileira: 22 de março de 2002.


